A vida é um sopro

É engraçado como estamos tão ocupados existindo que esquecemos de viver, que começamos e terminamos o dia executando as mais diversas tarefas, passando as horas sem prestar atenção em nada, sem dar valor aos pequenos gestos e acontecimentos. A facilidade com que deixamos para amanhã aquele concerto da porta do móvel velho, afinal não era prioridade. Deixamos para amanhã aquela cervejinha com o amigos, afinal, o capítulo da novela ia ser interessante. Eu tinha um trabalho da faculdade para fazer, tinha roupa pra lavar, e também, haverão outros finais de semana, outros dias outros jogos do Corinthians, ou da seleção brasileira, que poderemos nos reunir e tomar aquela cervejinha. E o hoje fica para amanhã.

Com essa reflexão em mente, venho contar a história do dia em que quase perdi o amor da minha vida.

Era uma sexta-feira, o celular desperta, abro os olhos, pego o aparelho e coloco em modo soneca, são mais 10 minutos para olhar aquela linda morena que dorme em meu peito, sentir a textura dos cachos dos seus cabelos em minhas mãos, o cheiro de shampoo e de hidratante, o castanho dos seus olhos, e o típico mau humor matinal que exala dessa mulher que eu amo tanto. Beatriz é seu nome.

– Bom dia, meu amor. – Disse-lhe sorrindo.

– Bom dia, minha linda. Vamos enrolar mais um pouquinho? – Ela murmurou em resposta, se aconchegando em meu peito e me abraçando mais apertado.

– Temos mais 10 minutos, ou iremos nos atrasar para o trabalho.

– Tá bom, amor, mais 10 minutos só.

Abracei ela mais forte, senti o calor da sua pele na minha, e ali ficamos, curtindo os corpos colados, por mais 10 minutos, até que o celular toca novamente.

Levantamos, não sem sofrer por isso, já era 7:20 da manhã. Tomamos o café juntas, com o mesmo clima de romance que um namoro de 07 meses ainda tem. Tomei meu café preto de todo dia, adoçado com açúcar e acompanhado de um pão de queijo quentinho, que eu havia acabado de fazer. Beatriz tomou seu suco de laranja, e me acompanhou no pão de queijo.

Ela não toma café, e eu sempre tive dificuldades para entender como é possível alguém não gostar de café. E ela não gosta, dentre outras particularidades, ela também não gosta de arroz e batata frita, e isso só a torna uma pessoa mais especial.

Aquela olhada no relógio, a constatação do quase atraso, ela pega sua moto, eu abro o portão e me despeço com um beijo rápido, um te amo e um que Deus te acompanhe e te proteja. Ela acelera e some no final da rua. Ajeito a mesa do café, arrumo a cama e sigo para o meu trabalho.

O dia passa, nós quase não nos falamos durante o dia, só trocamos algumas juras de amor e mensagens de ordem prática. O horário do almoço chega, e ela me manda uma mensagem no whatsapp “sua mulher quase morreu agora” e diante da banalidade com que tratamos as coisas do dia, achei que era só mais uma brincadeira dela, ou uma hipérbole, respondi, “o que aconteceu, meu amor” e a reposta demorou, mas não me preocupei. Afinal, o que poderia ter acontecido?!

Uma hora depois meu celular vibra, nova mensagem no whatsapp, um áudio que dizia “amor, não se preocupe, agora já está tudo bem, mas eu sofri um acidente. Estava indo pra casa, quando vi uns meninos soltando pipa na rua. Diminui a velocidade já imaginando que poderia acontecer alguma coisa, e realmente, a linha enroscou no meu pescoço, e era linha com cerol, cortou e só parou quando chegou na corrente do escapulário que você me deu. Já fui socorrida, me levaram no hospital e tomei 11 pontos no pescoço. O médico me disse que por milímetros a linha não corta a minha artéria, mas agora já estou bem.”

Fiquei em choque, em um minuto todas as coisas que vivemos passaram diante de meus olhos. O dia que nos conhecemos, o primeiro beijo, o sorriso largo, o dia em que cavalgamos juntas, o primeiro jantar que fiz para ela, a birrinha de quem não quer acordar, as discussões que tivemos, enfim, todos os detalhes de uma vida a duas, da nossa vida.

Peguei o celular e liguei de volta, no mesmo instante.

– Amor, como você está?

– Calma amor, está tudo bem, já fui medicada, já registrei o B.O. na delegacia, tudo está encaminhado.

– Menos mal. Tive muito medo de te perder, agora.

– Eu sei que sim, mas vaso ruim não quebra – ela me disse rindo – vai ter que me aturar mais um tempo ainda.

– Espero que esse tempo seja o resto da vida.

– E será, meu amor.

– Eu estou indo te buscar e te levar pra casa, vou cuidar de você.

– Liguei para meu pai, pra contar do ocorrido e ele ficou desesperado. Ele e minha mãe já estão vindo me buscar e vai me levar para o sítio com eles.

– Tudo bem amor, vai com ele que amanhã vou pro sítio passar o final de semana com você e com eles.

– Obrigada amor, te espero lá.

O resto do dia correu bem, mas eu não consegui me concentrar, eu tinha um evento do meu trabalho para participar, e por isso não havia ido com ela para o sítio do pais. A saudade me apertava, havia um aperto no meu coração que me deixava insegura. Era o medo da perda, o amor da minha vida quase morreu, e agora meus pensamentos pensavam na dor de um futuro sem ela.

Queria abraça-la, senti-la em meus braços, segurar apertado e falar, “amor, tá tudo bem, eu tô aqui e vou cuidar de você, nada de ruim vai te acontecer”. Não, eu não tenho o poder de protegê-la de todos os males dessa vida, mas nada me impede de tentar.

Finalmente acabou o evento da minha empresa, fui para a casa, fiz as malas e segui para o sítio. Cheguei na sede, estacionei meu carro, e fui entrando na casa, chamando a minha Bia, e ela saiu de um dos quartos, correu em minha direção e pulou em meus braços. Abracei-a forte, absorvendo o cheiro de sabonete que vinha de sua pele, sentindo os cachos de seu cabelo em minhas mãos, e ouvindo seu coração bater forte, assim como o meu. Ficamos ali em silêncio, abraçadas, por um longo tempo, colei meus lábios nos dela, em um beijo calmo e intenso, um beijo que diz “ei, te acalma, estou aqui e vim pra ficar”.

O fim de semana passou tranquilo, ajudei Bia no banho, fiz o curativo do seu ferimento, e na maior parte do tempo, Bia permanecia deitada em meu peito.

No domingo a tarde retornamos para a cidade, chegamos em casa, e o assunto do acidente, que até em tão não havia sido tocado, veio a tona.

a-vida-e-um-sopro

– Amor, você passou por um milagre, poderia ter acontecido o pior.

– Eu sei, quando aconteceu eu achei que não era nada grave, porque eu estava devagar, mas quando olhei no espelho retrovisor e vi corte e o sangue, vi que não era tão banal assim e corri em busca de socorro. Pensei em você a todo tempo, mas eu não queria te assustar, então esperei ate tudo ter sido resolvido pra te avisar, com calma.

– Eu sei que você queria me preservar, mas eu preferia que você tivesse me avisado na hora, assim eu poderia ter te acompanhado.

– Eles pediram alguém da família, por isso chamei meu pai, mas a minha vontade era segurar sua mão, principalmente no momento da anestesia e da sutura.

– Tudo bem, amor. O pior já passou, agora é bola pra frente. Eu morri de medo de te perder, meu mundo desabou quando tive a notícia, quando eu te ví com esse corte enorme no pescoço, tive a certeza de que Deus havia me dado você de presente mais uma vez, pra eu cuidar e pra eu amar, e é isso que pretendo fazer.

– Amor, você vai continuar me amando, mesmo com essa cicatriz enorme no pescoço?

– Meu amor por você vai além das aparências e também não acaba na primeira dificuldade. Eu te amo por quem você é, nossas almas se reconheceram no instante em que nos vimos, e nada nesse mundo pode mudar isso.

– Obrigada por me fazer tão feliz, por cuidar de mim, por ser companheira.

– Amor, não é esforço nenhum, é só todo o amor que sinto por você se manifestando nos meus gestos. Agora vem, deita aqui no sofá que eu vou cozinhar pra gente.

– Tá bom.

E assim terminamos a noite, comendo um belo macarrão à bolonhesa, assistindo um filme bem clichê na tv, e juntas, como nada no mundo pode mudar.

Quase perder uma pessoa que significa tanto é uma experiência de dor e alegria. A dor de ver o outro sofrer, com dor, assustada é horrível. Quando amamos alguém tudo que queremos é mantê-los bem e em segurança. E quando vemos que Deus te deu uma nova oportunidade de cuidar da pessoa pra sempre, a alegria é constante.

Você já beijou seu amor hoje? Olhou nos seus olhos e disse que a amava, que não viveria sem ela? Perguntou como foi seu dia, ou fez uma surpresa pra ela? A vezes uma rosa roubada do quintal do vizinho é muito mais especial que um presente caro. Amor não se compra, amor se sente, se constrói, se alimenta e se vive.

Toda vez que você olhar a pessoa que você ama pergunte-se: eu posso viver feliz sem ela? Com essa resposta nas mãos você poderá avaliar se aquela briga boba, ou a correria do dia a dia, a falta de tempo, valem a pena. A vida é um sopro, estamos só de passagem, e cabe a cada um de nós vivê-la da melhor forma possível.

<3

assinatura.Gi Medeiros.fw

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