Categoria: Contos Lés

DÁ A MÃO PRA MIM – PARTE III (penúltima)

O resto da noite foi uma atuação, eu só queria ir pra casa e dar um tempo na nossa amizade. Afinal, se ela queria tanto passar mais tempo cuidando de outra pessoa, rindo e se divertindo, eu era um empecilho para os planos dela, já que o fim de semana dela era dedicado a nossos programas. Ela precisava de mais tempo pra dedicar a essa menina.
Então, decidi me afastar. Na segunda ela mandou mensagem eu não respondi. Terça e Quarta a mesma coisa. Quinta e Sexta ela até me ligou, deixou recado na caixa postal eu ouvi, mas não retornei.

Duas semanas se passaram, eu fui ao centro de treinamento de cães-guias e ganhei o meu cão. Ela se chama Estrela, é da raça Labrador, meu irmão diz que ela tem os pelos marrons. Estrela não veio de imediato pra casa, ficou lá sendo treinada e eu todo fim de semana tinha que ir vê-la e treinar com ela. Nunca imaginei que era tão difícil guiar um cão guia.
E Anita, bom,  ela já nem tentava mais me ligar o que me deixava triste, mas eu não a culpava, fui eu que a evitei. O fim do ano se aproximava, seria um fim de ano tumultuado:  baile, formatura e a Estrela também já viria pra casa.

Sem notícias de Anita, afinal eu claramente expulsei ela da minha vida. Até que uma sexta a noite a campainha tocou, Paty foi atender e só achou uma carta destinada a mim.

– Karla é pra você.

– Leia pra mim, ou está em braile?

– Não, não está… Confia em mim? Posso ler mesmo?

– Sim.

– Ok… “Karla, porque você sumiu da minha vida? Não responde minhas mensagens, minhas ligações ou meus recados. O que eu te fiz? Eu sinto sua falta todo dia! A nossa última conversa ainda está na minha cabeça e eu não consigo achar o que eu possa ter lhe falado que a fez se afastar tanto de mim. Saudade é algo difícil de explicar a quem não sente, mas eu creio que você me entende. Eu estou indo para São Paulo, vai ter um congresso e me deram a oportunidade de ir. Não irei na sua formatura, apesar que, nem sei se você gostaria que eu fosse.
Espero que essa carta tenha sido entregue, pedi para uma amiga minha de trabalho entregar no seu apartamento. Junto da caixa está seu presente de formatura. Espero que goste.
Me ligue quando quiser, agora… Amanhã, ano que vem! Você que sabe! Você que manda… Eu só quero que você saiba que eu vou passar a minha vida inteira (se for preciso) esperando por uma ligação sua. Estarei em São Paulo dos dias 08 até o dia 24 de Dezembro. Então é isso… Eu não sei o que eu te fiz! Mas seja lá o que eu tenha feito, me desculpe!
Sinto saudades… Beijos Anita
OBS: Fiquei sabendo que você vai pegar a Estrela esse mês, fiquei feliz com isso
.”

Eu comecei a chorar, foi uma mistura de saudades dela com raiva da atitude que eu tomei. Continue lendo

Celine Ramos
Baiana, feminista, negra e publicitária. Fundadora do SouBetina. Vivo na ponte-aérea Salvador-São Paulo. <3

DÁ A MÃO PRA MIM – PARTE II

O Domingo passou, a segunda já estava nas suas horas finais e as 18:10 ela me liga dizendo que estava me esperando. Desci.

– Onde você está?

– Fique parada, abra sua mão do seu lado direito

Senti minha mão sendo preenchida pela mão de Anita

– Oi como você está?

– Estou bem e você?

– Animada por sentir sua voz melhor.

– Bom, podemos ir conversando dentro do carro?

– Sim!

– Ok, me dê sua mochila, de longe dá pra ver que está pesada (risos)

– E está mesmo (risos)

Entramos no carro e Anita começou a falar de como foi o seu domingo e a conversa com a Verônica.

– Assim que ela acordou e tomou o café, conversamos apesar de ela dizer que era drama barato. Mas eu disse tudo que precisava dizer. Enfim, é triste dizer isso, mas eu chego a estar aliviada.

– Complicado

-E você? Está bem?

– Sim. Meu celular! Está na hora de ir pra faculdade.

– Ok “Dona Pontual” (risos). Já estou ligando a limusine (risos)

– Isso aí! (risos)

Anita me levou até a entrada. Assim que coloquei os pés para fora do carro, Edu veio até a mim. Apresentei ele a Anita, me despedi dela e entramos para a aula. Edu é um cara muito legal, meu irmão disse que ele me olha com uma cara de apaixonado, eu não acho… Digo pelo fato dele nunca ter me dito nada.
A formatura está chegando e Edu e eu vamos juntos ao baile, nossa turma resolveu “americanizar ’’ alguns hábitos… Como o baile. Edu também é meu par romântico na última peça faculdade, estamos num momento muito importante que é a construção de personagens.

A semana passou voando. Meu irmão resolveu fazer uma noite de pizza lá em casa, e é claro que eu chamei Anita, já o Edu Continue lendo

Celine Ramos
Baiana, feminista, negra e publicitária. Fundadora do SouBetina. Vivo na ponte-aérea Salvador-São Paulo. <3

DÁ A MÃO PRA MIM – PARTE I

Me chamo Karla, tenho 23 anos,  a pele clara, cabelos negros lisos e cumpridos.
Não me considero alta e nem baixa, nasci no Rio de Janeiro, mas me criei em Porto Alegre. Nasci deficiente visual (cega), fui criada pelo meu pai e pelo meu irmão, o Edson, mas ele prefere ser chamado de Ed.

Sou estudante de artes cênicas (teatro).  Algumas pessoas se assustam por eu dizer que faço faculdade, que de certo modo me viro bem, mas não dizem por ai que a vida é pra quem tem coragem? Bom, essa sou eu!

Um dia, andando pelo parque voltando da casa da minha preparadora de elenco, dispensei meu irmão, eu queria ficar um pouco sozinha, arejar a cabeça. Senti que tinha alguém me seguindo e resolvi apressar o passo, e quanto mais rápido eu andava mais essa pessoa andava também. Foi quando senti que alguém tira da minha mão o meu Bastão de Hoover (Bengala que nós cegos usamos para andar de maneira mais tranquila e segura), escutei a risada do rapaz, e comecei a gritar. Não demorou muito e escutei esse mesmo rapaz gritando de dor e uma voz feminina e doce.
– Se mete comigo seu filho da mãe.

– Tá doendo moça.

– Vai doer mais quando eu partir sua cara.

– Calma, calma! Eu só estava brincando.

– Ah, é? Idiota! Vou chamar uns amigos meus para brincar com você também!

– Não, me solta pow.

– Eu vou te soltar, e se eu te ver de novo eu juro que eu viro seu pescoço seu malandro!

Escutei os passos do cara indo embora, e a voz doce se dirigindo a mim.

– Estou na sua frente, estique sua mão… Dá a mão pra mim

– Muito obrigada, moça.

– Não precisa agradecer, toma seu bastão.
– Qual seu nome?

– Anita, e o seu?

– Karla Continue lendo

Celine Ramos
Baiana, feminista, negra e publicitária. Fundadora do SouBetina. Vivo na ponte-aérea Salvador-São Paulo. <3

O beijo que eu não dei

Eu tenho uma amiga linda por dentro e por fora. Nunca está de mau humor, mesmo com o mundo dela caindo, nunca reclama da vida, mesmo tendo perdido o pai para um câncer, e estamos sempre fazendo algo juntas, mesmo estando eu de mau humor. Conversamos abertamente sobre quase tudo. Quase.

Uma das melhores amigas que eu já tive, com mesmos gostos e preferências e também formas de ver o mundo. Quando estamos ambas com tempo, nos vemos toda semana. Somos muito carinhosas uma com a outra. Escrevemos mensagens fofas, dizemos que estamos com saudade uma da outra, trocamos carinhos e abraços. Uma cumplicidade muito bacana.

Eu a conheci pela internet. Desde o primeiro encontro não desgrudamos mais. Lá se vão dois anos… Pouc Continue lendo

Celine Ramos
Baiana, feminista, negra e publicitária. Fundadora do SouBetina. Vivo na ponte-aérea Salvador-São Paulo. <3