#ContoRápido – Paralisada

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Me despiu das verdades. Vestida passou por mim, me olhou com os olhos semicerrados, provocante, penetrante e quando ria, os olhos amendoavam singelos, dóceis, numa mistura tão envolvente capaz de tornar dançante até as luzes das ruas frias de Curitiba.

Praças, beijos, cafés, lábios, parques, mãos, estradas sorrisos, sabores, cheiros, tato.

Bares, luzes, carro, colo, beliche.

Eu sedada ali, sentada esperando pelo imprevisível, o que esperar, quando dentro de mim só habitava adrenalina, tão suspirante que quase se tornara ânsia, dessas que mexem com as entranhas.

Despida, eu me sentia um púbere, você era cena, revista, livro, filme, eu ali, adolescente perdida, encontrava um corpo, uma escultura, curvas que só antes vira na ficção, nem no meu mais indecente sonho eu vivi aquela trama, naquele quarto curto, escuro, iluminado apenas pela lampadinha debaixo da cama, que me permitia vê-la e ao mesmo tempo esconder-me.

Jorrava em mim um tesão adormecido, a ânsia foi dando lugar ao ímpeto. Você cabia em mim, mãos, braços, boca, dentes. Seu balanço feito vela, que tremula no escuro, arranca tua blusa, a minha, na segurança de quem sabe o que quer e pra onde vai me levar. Minhas mãos torneiam suas costelas, num aperto quase bruto. Queria beijar-te inteira, não havia receita, me sentia virgem, apavorada, diante de tanto desejo que oscilava com a trêmula insegurança de não saber o que fazer com tudo aquilo que me dominava por inteira.

Instinto.

Usaria desse efeito pela primeira vez, como animal que vai pelo cheiro, pelo que move, pelo desejo censurado, tomaria você inteira. Renda, pernas, calcinha, sem script, sem limites, me sentia tomada pela vontade de você. Não me sentira um monstro, mas eu era enorme em cima de você, você tampouco volátil, na verdade amedrontava, eu que tremia.  Ousara encaixar teu sexo no meu, ousara compartilhar daquele gozo e sentia que pertencia a você, como num universo inebriante, alucinógeno.

Se existira o limite do tempo, do estado, desconhecíamos, sem motivos, sem ressalvas, éramos inteiras ali. Me olhara com aqueles olhos, agora amendoados e não me deixaria cair no sono.

Numa valsa de IPhone, lua, escritos, no pulsante traço colorido das ruas, dos becos de São Paulo, me encontrava, me encantava e me desenhava sorrisos. Outros lençóis, outras luzes dançavam, as músicas embalavam aquele amor que habitava em nós e você inaugurava espaços em mim. Meio Machado, meio Caio, queria escrever você no meu corpo, numa poesia proibida.

Seu perfume caro, misturado naquele cheiro de cigarro, numa combinação subversiva, marcante como tem que ser. As bolinhas coloridas no espelho perdiam o foco, mudavam de tom, feito feitiço.

Me embola, rebola em mim, no mesmo tom da canção, carinho, pele, cabelo, cigarro, a cidade acesa e eu ali, tomando você para mim, te bebia inteira, teu gozo, cheiro e gosto.

Minha boca percorre seu corpo, feito aventura, numa descoberta sem pudores. Te afago, mato minha sede e descubro suas curvas, pelos e pela pele me agarro, te mordo, me encontro e exalo todo o desejo, livre, liberto no meu urro, no teu gemido.

Deito em seu peito, ofegante, respiro. Posso te amar. Posso começar a te amar agora. Num caminho, num risco, num riso sem fim.

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Celine Ramos
Baiana, feminista, negra e publicitária. Fundadora do SouBetina. Vivo na ponte-aérea Salvador-São Paulo. <3

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