#ContoRápido – Olhos de Cigana

Às vezes o vento traz as folhas caídas da estação, às vezes traz a poeira, às vezes traz surpresas também. E foi assim que me senti, surpresa, quando vi a sua chegada.

Já fazia 1 ano que não te via, que não via seu sorriso provocante, e como diria Machado de Assis, no seu romance Dom Casmurro, quando Bentinho cita José Dias, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”.

Até aquele dia você não tinha me chamado a atenção, talvez pela pouca idade quando se mudou da casa verde vizinha da minha, talvez pelos cabelos até então platinados, que de fato, evidenciavam que as loiras nunca foram meu forte. Hoje você era outra mulher, definitivamente uma mulher feita, cabelos negros, olhar marcante e sorriso provocante, emoldurados em um batom vermelho.

Mas enfim, 4 anos depois eu te encontrava mais uma vez, sentada na mesma mesa, copo de cerveja na mão, riso fácil e cigarro na boca. Um sorriso cada vez mais provocante, olhar que prendem, lábios que pedem um beijo.

Ali permaneci por horas, observando de longe, frente a frente, a cada gole, a língua que passeava nos lábios, o cigarro que agora ocupava o lugar que meus lábios queriam passear.

Fim de noite, dei a carona para casa, me despedi com todo o respeito de quem se despede de uma amiga antiga, e naquele momento era isso o que você representava.

Fui para casa e sua imagem não me saía da cabeça, a ideia fixa de tê-la em meus braços latejava em minha mente. O cheiro de perfume aliado ao cheiro do tabaco ainda rondava minhas narinas, o macio dos lábios no beijo de despedida me causavam o arrependimento de não ter roubado um beijo na boca que lhe tirasse o fôlego e acabasse com meu juízo.

Em casa, deitada na minha cama, me restou o arrependimento apenas, e a ideia fixa de um novo encontro. Passeando pelo instagram, vejo a foto dessa mulher maravilhosa, e em cinco minutos de coragem insana, chamei-a no inbox.

 

– Oi Julia, topa tomar um chopp comigo?! Qualquer coisa me chama no meu whatsapp.

 

A resposta foi sim. Ela aceitou minha companhia, aceitou passar um tempo só comigo, e mesmo que esse encontro não se estendesse além do chopp, eu já estaria satisfeita em desfrutar da companhia dessa mulher maravilhosa.

Marcamos para uma sexta-feira, mandei lavar o carro, busquei-a no horário combinado, não atrasei nenhum minuto. Pelo contrário, foi ela quem se atrasou, e eu esperei pacientemente. A espera valeu à pena.

Julia veio linda, caminhando com toda confiança que só alguém tão seguro quanto ela tem.

Entrou no meu carro, o som que tocava no rádio era Mary Lambert – She Keeps Me Warm, o clima estava ameno, o seu perfume invadiu o ar, e todo o resto do mundo não importou mais.

Chegamos até um barzinho, sentamos na área externa, e ali pedimos um chopp, conversamos e nem vimos a hora passar. A presença de Julia era marcante e envolvente, tudo nela me encantava.

As horas foram passando, as pessoas chegaram e foram embora, e nós continuamos ali, no papo envolvente que aumentou a velocidade do tempo.

O barzinho estava prestes a fechar, acertamos a conta, entramos no carro, nos olhamos fixamente por alguns segundos, ou minuto, não tenho tanta certeza. O olhar de Julia me hipnotizava, mais uma vez Dom Casmurro vinha a minha mente. Os olhos de cigana obliqua e dissimulada agora tornaram-se os olhos de ressaca, que assim como o mar de ressaca, no balanço de suas ondas indomáveis arrastam tudo o que está à margem para dentro das águas, seu olhar me arrastava, me puxava pra dentro, pra perto.

 

– Pra onde vamos? – Ela me perguntou.

– Pra onde você quiser.

– Então vamos para um lugar mais calmo, onde ninguém nos incomode.

 

Parei o carro numa rua escura, não me lembro como se deu a aproximação, me lembro apenas da respiração ofegante, dos corpos suados, da energia que emanava, da química que nos unia, do beijo molhado, urgente, das mãos ágeis, das unhas cravadas nas minhas costas.

Uma explosão de emoções e sentimentos, sentimentos estes dominados pelo prazer.

Não sei se haverá um segundo encontro, se a oportunidade se fará presente, mas sei que desta noite cada segundo valeu a pena.

Assim como Bentinho um dia perdera-se dentro dos olhos de ressaca de Capitú, naquele dia, eu me fora arrastada para dentro do mar de desejo dos olhos de Julia.

 

 

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