A flor – Parte IV

 

POV ANITA

Uma boa parte dos clientes vem até a mim à procura de companhia, são solitários e carentes. E de certo modo meu serviço supri isso neles. Eu sou de Canoa Quebrada, sou de origem humilde e me orgulho muito disso. Meu maior sonho quando criança era ser pescadora como o meu pai.

Canoa quebrada fica à 164 Km de Fortaleza, capital do Estado de Ceará, na região Nordeste do Brasil. Forma parte do Município de Aracati, nome indígena que significa “bons ventos” ou ainda “aragem cheirosa”. Construída em cima de dunas e falésias, sua praia é banhada pelo Oceano Atlântico. Canoa Quebrada é o segundo ponto turístico do Ceará, em primeiro temos a capital Fortaleza.
A povoação de “Canoa Quebrada”:  nasceu a partir do pequeno povoado da família Estevão ou Esteves. Descoberta na década de 1960 por cineastas franceses do movimento “Nouvelle Vague”, a povoação sofreu um choque de culturas, que resultou num sentimento de liberdade que ali impera até hoje.
Tenho orgulho de ter nascido em um lugar com tantas histórias. Saber que minha terra natal é conhecida como uma comunidade de alta diversidade cultural.

Mas, quando a gente cresce, preocupações vem… E meu sonho de ser pescadora foi para o ralo. Conheci uma garota, me apaixonei, enfrentamos tudo juntas e com o tempo a população foi se acostumando com isso.

Mas ela sempre foi tão ciumenta, quando disse que assim que terminasse o colegial, procuraria fazer uma faculdade, ela surtou. E ai começou o terror. Sofria chantagens, agressões psicológicas da parte dela, fora o ciúme que passava de todo e qualquer limite. Até que um belo dia, ela me agrediu fisicamente. Terminei com ela. Foi bem doloroso, afinal, meu plano era trazê-la para estudar comigo, e depois de formadas, voltaríamos e nos casaríamos.

Ela virou o capeta no meu pé, e no pé da minha família. Quando me formei, nem fui a minha formatura, então me mudei correndo. Praticamente saí fugida. Me mudei e consegui um emprego no MC Donald, dava para me sustentar e estudar. Isso tudo com muita dificuldade. Até que meu pai sofreu um acidente de trabalho, caiu no mar, e um tubarão atacou suas pernas, foi um milagre ele ter sobrevivido. Porém ficou impossibilitado de pescar.
Minha mãe é mulher rendeira, sustentava a casa somente com o dinheiro das vendas de sua arte, aquilo não estava funcionando.

Até que meus pais decidiram colocar Luna, minha irmã mais nova para trabalhar em um restaurante local na parte da noite. Uma garota de 14 anos, trabalhando a noite é extremamente perigoso. Canoa tem aproximadamente cinco mil habitantes, eu conheço todos, cresci com alguns, vi nascerem outros. Outros me viram nascer, e eu sei bem, como os velhos ficam ao ver uma mocinha de 14 anos sem um responsável por perto.

Eu não desejo isso para a Luna.

Então, na mesma semana me ofereceram esse tipo de trabalho. Eu precisava ajudar minha família, então aceitei. Nos primeiros meses foi algo difícil, chegava em casa chorando com nojo de mim. Sofri nas mãos dos meus primeiros clientes, a inexperiência de como lidar com toda a situação foi algo complicado, mas o tempo ensina.
Meus  pais não sabiam de onde vinha o dinheiro, creio que nunca desconfiaram. Mas minha ex, contratou um detetive aqui na capital. Não demorou muito para ela descobrir da minha vida dupla e espalhar a notícia na comunidade toda. Foi um momento bem tenso, meus pais não queriam nem mais contato comigo, e ficou dessa forma durante meses até que resolvi voltar até lá, olhar nos olhos das pessoas que eu mais amo no mundo e contar tudo, absolutamente tudo.

Não foi fácil, mas trabalhar com a verdade é sempre melhor. Claro que meus pais me amam, minha irmã que também sabe me ama e é muito carinhosa comigo. Eles sabem o que eu faço, mas nem por isso tocamos no assunto. Trabalho de quinta à sábado, e o que eu ganho dá para pagar minhas contas, ajudar minha família e ainda guardo para a faculdade de Luna.

Domingo é meu dia predileto, fico largada em casa, com um pijama velho, assistindo series ou filmes. Eu tenho dois celulares, um só para meu trabalho, sempre desligo ele. Mas dessa vez esqueci. Havia uns clientes malas querendo me ver, ignorei. Fui olhar na minha lista do whatsapp e lá estava Isabelle. A frase dela do whatsapp é sempre a letra de uma música ou uma frase motivacional, dessa vez, só uma carinha de choro. Ok, isso é estranho, mas eu gosto muito dela, conversamos tanto sobre tudo. E ela é tão gentil comigo. Sempre fui contra a aproximação demais com clientes, mas sei lá, ela é diferente.

Eu: Oi

Isabelle:  Oi, Anita. Tudo bem?

Eu: Sim, pelo visto você não. Quer conversar?

Isabelle: Hoje é aniversário de morte da minha mãe, esse dia sempre é uma droga.

Eu: Não fique em casa, vai sair. Conversar com seus amigos.

Isabelle: Não, eu não tenho amigos aqui, tenho um grande colega de trabalho, mas ele deve estar cuidando dos filhos trigêmeos dele e curtindo a esposa. Mas agradeço a preocupação.

Eu: Olha, eu vou passar a tarde vendo filme aqui na minha casa, quer vir?

Isabelle: Sério?

Eu: Sim! Gosto da sua companhia. Vem!

Isabelle: Não quero te atrapalhar.

Eu: Não é incomodo algum, tô pensando em comer besteira, me entupir de refrigerante. Tá muito calor, tô quase indo comprar sorvete

Isabelle: Bom, se eu posso ir mesmo, deixe o sorvete por minha conta. Se eu quiser levar mais coisas posso?

Eu: Claro! Anota aí meu endereço: Av. Califórnia, prédio 727, apto 55. Vou avisar para o porteiro para te deixar entrar e ele dirá onde você pode deixar o carro, tá bom?

Isabelle: Anotado! Me dê meia hora e estarei aí.

Eu: Te espero.

Trinta minutos depois, o porteiro me avisou que Isabelle estava subindo. A campainha tocou.

– Oi! Bem vinda. – Dei um beijo em sua bochecha, Isabelle está cheia de sacolas.

– Olá. Obrigada pelo convite, licença. – Ela percebeu que eu estava olhando a quantidade de sacolas em sua mão. – Olha, eu sou uma pessoa sem limites quando o assunto é supermercado, ainda mais quando a missão é comprar besteiras. Eu resolvi comprar ingrediente para pizza, lanches, brigadeiro e tem também um monte de molho. Eu aprendi um lanche caseiro quando eu era adolescente, aprendi com a minha madrasta, é muito bom. Se quiser, mais tarde posso fazer.

– Claro! Será ótimo. Vou te levar até a cozinha. – Colocamos as coisas em cima da mesa. – Comprou batata frita também! Amo batata frita. – Ela me olhava espantada, me olhava como me olhou no nosso primeiro programa. – O que foi?

– Estou com vergonha.

– Isso eu estou percebendo, parece aquela Isabelle do primeiro programa, que ficava vermelha com tudo. Acho isso fofo.

– Eu comprei isso para você. – Ela me entregou uma caixa de chocolates, eu fiquei sem ação, não sei quando foi a última vez que alguém me deu algo. Então ela veio até mim, de um jeito tímido e me deu um beijo na bochecha. – É uma forma de agradecer pelo convite até a sua casa, e você sempre é tão legal comigo. – Do nada não controlei, e comecei a chorar, eu sei que a cena está sendo ridícula mas, eu não conseguia parar. –  Ai meu Deus, eu fiz algo? Te ofendi?

– Não, é que eu sou uma manteiga derretida, eu nem me lembro a última vez que alguém foi tão gentil comigo. Me emocionei, desculpe.

– Posso te abraçar? – Eu apenas afirmei com um gesto, senti seu corpo com toda calma colando no meu, um abraço cheio de carinho. – Você é muito legal, as pessoas julgam demais as outras, você é muito legal, Anita.

– Rosa. – A corrigi.

– Oi?

– Meu nome, não é Anita. É Rosa. – É a primeira vez que digo o meu real nome a uma pessoa que é minha cliente, sempre guardei isso como um segredo precioso, mas com a Isabelle eu simplesmente falei, ela se afastou um pouco, sorrindo de lado. – O que?

– Seu nome combina com você. É bonita como uma rosa, cheirosa como uma rosa, delicada como uma rosa. E forte como uma rosa.

– Forte? – Não desfiz do abraço, havia tanto tempo que não abraçava ninguém.

– Sim, rosa resiste a condições climáticas precárias, ela luta para sobreviver. Então é uma flor guerreira. – Sorri enquanto ela me abraçava e me falava sobre a rosa.

– Preciso parar de chorar, acho que já está ficando uma situação constrangedora. – Dei uma risada no qual ela me acompanhou.

– Já te disse em outra ocasião que não me importo com seu abraço. Gosta de chocolate?

– Sim! Esses são os meus preferidos.

– Feliz em ter acertado. Bom, porque não me mostra sua casa?

– Ótima ideia vem comigo. – Ela me seguiu pacientemente enquanto mostrei minha casa. Não é grande demais, não tem nada demais. Mas é minha, e isso me dá muito orgulho, minha mãe sempre diz para termos orgulho do que possuímos e agradecer à Deus sempre. – Gostou? – Isabelle olhava atentamente para um porta retrato.

– Muito. Linda foto, sua família?

– Sim, é a foto mais recente que tenho, foi a ultima vez que os vi, eles moram em Canoa Quebrada, você deve conhecer.

– Já ouvi falar, dizem que lá é lindo. Porem nunca fui.

– Dá próxima vez que eu for, se der para você me acompanhar, te chamo.

– Será um prazer.

– Seu nome é só Rosa?

– Não, é Rosa Maria Cabanãs e o seu?

– Isabelle Baum. – Apertei sua mão como quem tivesse conhecendo-a naquele momento. – Gosta do seu nome?

– Sim, gosto, me orgulho dele. E você? Gostou do meu nome?

– Sim! Mas, de onde você tirou o Anita? Foi por causa da cantora?

– Não, não! Foi por causa daquela minissérie da Globo, achei a história interessante.

– Verdade, Presença de Anita!

– Exatamente. As batatas ficaram prontas, terminou de encher o copo com refrigerante?

– Sim, senhora. – Ela bateu continência fazendo uma careta, foi impossível não rir.

– Ótimo! Vamos ver o melhor filme do mundo!

– Qual?

– Harry Potter!

– Ah, me beija! – Sei que foi apenas um modo de falar, mas ela ficou vermelha como um pimentão. – Desculpa, desculpa não é nesse sentido… É que eu sou extremamente fã de Harry Potter e é tão difícil achar gente quem goste.  – Comecei a rir. – Desculpe.

– Tudo bem, eu te entendi, relaxa. Se bem que você merece um beijo. – Fui em sua direção e dei um beijo estalado na bochecha. – Até que enfim achei alguém que curte Harry Potter. – Ela ficou roxa com cara de boba acho tão bonitinho seu jeito.

– Qual casa você pertence? – Ela me perguntou.

– Da melhor casa! Sou Corvinal!

– Ah, qual é? A melhor casa é Grifinória!

– Claro que não. Fora que é muito clichê ser da casa da Grifinória, só porque o Harry é.

– E que mal tem isso?

– Nenhum, mas eu prefiro não ser Maria vai com as outras, eu entrei no site oficial, fiz o meu teste e deu Corvinal, sou do terceiro andar.

– Eu também fiz o teste e deu Grifinoria. Nunca conheci alguém que fosse da Corvinal, nem em internet. Quem fundou a sua casa?

– Rowena Ravenclaw, o responsável pela casa é o professor Filuis Flitwick, e o nosso fantasma é a dama cinzenta e o animal que representa Corvinal é a águia.

– É, realmente você é de corvinal.

– Porque?

– Porque são extremamente inteligentes e tem muita força de vontade. Você é assim.

– Viu só com eu tenho razão! – Caímos na risada, enquanto fui colocar o DVD.

– Desde o primeiro?

– Claro! – Me sentei do meu lado, e ataquei a vasilha de pipoca.

Passei uma tarde extremamente agradável
Comi tanto que estou com uma leve barriguinha, precisarei voltar a correr na esteira da minha casa, só Deus sabe o quanto eu odeio fazer isso.

Por eu sempre ser sincera com o que eu sou e o que faço, as pessoas sabem como eu ganho a vida, inclusive na faculdade onde estudo.
E é claro que isso me rende muitas brincadeiras de mal gosto… Fora o preconceito.

As mulheres evitam ser vistas falando comigo. Os homens parecem me ver como um pedaço de carne e por conta disso já escutei coisas bem desagradáveis. Enfim, resultado final. Eu sem amigos.
Isa é muito gentil, inteligente e  temos um excelente papo, gosto de sua companhia. Gosto muito dela.

Continua…

A FLOR – PARTE V

 

Já leu?

A flor – Parte I

A flor – Parte II

A flor – Parte III

 

 

 

 

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Celine Ramos
Baiana, feminista, negra e publicitária. Fundadora do SouBetina. Vivo na ponte-aérea Salvador-São Paulo. <3