A FLOR – PARTE IX

Horas depois.

– Olha, podemos andar por aí mais tarde?

– Claro, a hora que você quiser. Aconteceu algo?

– Eu preciso ir com a Luna em um lugar.

– Estou te achando preocupada.

– Digamos que a Luna precisa ir em uma ginecologista, porém meus pais são cabeça fechada em alguns aspectos e vão achar que ela já não é mais virgem… E bom, eu já passei por isso e meus pais fazem uma tortura psicológica terrível, e olha que eles aceitavam meu namoro com Erica, até gostavam dela. Eles achavam que por eu estar com uma outra garota não havia como perder a virgindade, foi uma das conversas mais constrangedoras da minha vida. – Comecei a rir de lembrar. – Agora estou rindo mas na época, foi foda.

– Hum entendi, e digamos que chegou o momento da Luna.

– Sim, se meus pais soubessem também achariam isso, afinal, antes a filha se prevenindo do que eles sendo avós.

– Se eles já ficaram bravos comigo, mesmo eu tendo um compromisso sério, imagina com ela que não tem. Ela só fica sério com o menino, é o tal Sergio que avisou-a do show.

– Entendi, posso fazer companhia para vocês, aí a mãe de vocês vai achar que estamos apenas dando um volta por ai.

– Sério? Passaria a tarde inteira sentada em uma cadeira em um posto de saúde, olhando para uma TV ligada na TV Globo porém sem som e com a função legendas ativada? – Disse intimidando-a.

– Pela Luna? Com certeza!

– Você é incrível. – Passei a mão em seu rosto, nossos olhos conectados, abracei-a apertado. – Obrigada.

– Obrigada você… Obrigada você. – Ela repetia em um sussurro gostoso em meu ouvido.

– Trouxe camarão! – Minha mãe entrou com tudo e viu aquela cena, nós duas nos soltamos rapidamente mas é claro que ela viu. – Desculpe, meninas.

– Bom dia, senhora. – Isa disse sem graça.

– Não atrapalhou nada! Amo camarão, você também não é, Isa? – Ela afirmou com um gesto. – Vou te ajudar a limpar o camarão.

– Tá. – Minha mãe disse vermelha de vergonha. Quando chegamos na cozinha ela me olhava curiosa.

– Não é isso que a senhora está pensando.

– Mas poderia ser, ela é tão boazinha filha… Eu queria ela como nora.

– Mamãe! Nem comece. – Tentei repreende-la em vão.

A tarde foi exatamente como eu planejei. Demorada no posto de saúde, pelo menos Luna saiu de lá satisfeita, mais segura. A ginecologista passou um anticoncepcional para ela tomar.

Fomos o caminho todo pensando em como contar para nossos pais que a filhinha deles agora terá que tomar anticoncepcional. Mas no fim eu tive uma conversa com os dois, claro que não falei que a Luna tinha perdido a virgindade, mas expliquei pra eles que já é necessário usar anticoncepcional.

Ela se integrou tão bem na família, ver ela conversando se sentindo bem ali com meus pais e minha irmã. Como eu queria que essa cena se repetisse todos os dias.

POV ISA

O show vai ser intimista, todo mundo sentado confortável. Tô animada. Luna estava escolhendo um brinco no quarto, enquanto Rosa se maquiava.

– Tá animada por causa da musica? Por causa do Sergio estar lá? – Rosa piscou para a irmã.

– Porque vai ser o primeiro show que nós vamos juntas. E porque o Sergio vai estar lá, não vou mentir.
– Tem gente que está apaixonada! – Falei em tom de brincadeira.

– E você não está? – Luna retrucou na hora me deixando totalmente constrangida, Rosa me olhou de canto mas não se manifestou.

– Ora ora menina, calma ai hein!¿ – Desconversei.

– Pode desconversar, eu sei que está. – Luna piscou para mim e se eu pudesse me enfiaria em um buraco no chão.
Não foi muito tempo de carro, chegando no local conhecemos Sergio. Senti um certo ciúmes vindo de Rosa afinal, é o namorado da irmã dela, que ela trata como um bebe.

O lugar parece mágico, tem velas e lâmpadas, mas nada de grande show, algo intimista tão lindo.  Inexplicável. O show começou, a banda realmente toca muito bem. Rosa sabendo todas as musicas e se divertindo. É lindo o sorriso no rosto dela com essa musica boa no fundo.

Abalou minhas estruturas quando o vocalista chamou a participação especial de Aline Wirley. A Aline do Rouge. Parece uma deusa grega entrando no palco sorrindo leve e aberto. Rosa me olhou tão incrédula como eu.

– Eu era a Patrícia. – Rosa me confessou em um sussurro.

– Mas você não é japonesa. – Olhei para ela sem entender.

– E dai? É a única que tinha cabelo preto. E você era quem?  Fantine ou Luciana?

– Luciana é claro… Por mais que ela tenha deixado o grupo depois do segundo CD, dava pra ver que a Fantine tinha inveja dela.

– Concordo. – Rosa retrucou rapidamente.

– Ei vocês duas, parem de falar e presta atenção no show. – Luna nos repreendeu.
– Sim, senhora! – Falamos juntas e passamos um zíper na boca.

E começou a musica, e ainda por cima é a musica predileta da Rosa. Ela colocou a mão no coração, seus olhos brilhavam. Ela estava tão vulnerável, emocionada, eu não sabia se prestava atenção no palco ou no show que acontecia ao meu lado.

Capitão da revolução do meu lugar

Tem a chave não precisa nem pedir, entra

Voz de anjo que veio me acordar

Com agrado de manteiga

Mora ai dentro um leão

Por fora porcelana alemã

 

Salvador os meus dias na cidade do mar

Abre a porta que eu quero passear

Trouxe verde da minha madrugada

Filhote que cuida bem de mim

Eu tenho receita da sua risada

 

Nossas peças lavadas tão juntas

Sobrepostas nesse nosso varal

Assistir tv com cheiro de hortelã

Para dormir gira a cama

Nesse canto é melhor

É-me-lhor

 

Esse corpo perfumado que virou plateia

Das minhas vozes

Vai volta pro seu frio

E leva meu carinho estabanado

 

Um girassol lembrou você

E tudo aquilo que eu vou deixar para trás

Como eu vou de olhos fechados para não sentir

Fica de lembrança

Minha cômoda branca

 

Nossas peças lavadas tão juntas

Sobrepostas nesse nosso varal

Assistir tv com cheiro de hortelã

Para dormir gira a cama

Nesse canto é melhor

É me-lhor
Aline saiu do palco sobre um mar de aplausos, que voz incrível. Meta de vida: Ir em um show dela (se possível com a Rosa).

– Gente vamos comer alguma coisa, eu tô com fome. – Luna reclamou.

– E me diz quando você não está? – Rosa retrucou zoando com sua irmã.

– Vai me dizer que só eu estou com fome?

– Admito que também estou.

– Meninas, eu conheço um lugar, de frente pro mar, um bar onde tem umas porções bem generosas… Luna e eu já fomos lá. – Sergio disse dando as mãos para Luna, deu pra notar que ela ficou corada. Efeitos do primeiro amor, é bonito de se ver.

Pedimos porções, Rosa praticamente interrogou o menino.
Só faltou perguntar como ele se imagina daqui 30 anos e o tipo sanguíneo.

– Posso levar vocês até em casa?

– Não é necessário, Sergio, pode ir.

– Rosa! Claro que é necessário. Na verdade, eu estou com uma vontade de ver o mar! – Inventei uma desculpa, afinal, claro que o Sergio queria ficar um pouco sozinho com Luna e ela também. Porém Rosa parece não ter se ligado, ou justamente por ter se ligado que ela não queria.

– Mas agora?

– É! Faz seguinte, Sergio faz o favor de levar a Luna até em casa. Vão andando, conversando, hoje a Luna pode chegar tarde em casa.

– Isa! – Rosa entendeu bem o meu recado.

– Oi. – Olhei pra ela. – Continuando, Luna se você chegar primeiro do que nós duas, por favor manda uma mensagem ok? Se cuidem, aproveitem e prazer te conhecer Sergio. – Dei um beijo nos dois e sai arrastando Rosa para o lado contrário deles sem dar chance dela falar algo.

– Você sabe o que os dois vão fazer?

– Relaxa, nada do que já não fizeram. Deixa eles, Rosa.

– É a minha irmã, poxa.

– Justamente, é a sua irmã. A garota responsável que quer ser medica, que cuida da casa, que te ama e te admira pra caralho, que te contou sobre um momento importante da vida dela. Rosa, quantas garotas perdem a virgindade antes, bem antes da idade da Luna e nem procura se cuidar¿ Já ela estava louca pra ir na ginecologista, fazer tudo certinho. Sua irmã tem juízo e o menino é legal. Você já passou por essa fase, não é mesmo?

– É.  – Rosa suspirou. – Passei com a pior pessoa possível.

– Concordo, mas pense, você só é assim hoje em dia, porque você teve que passar por coisas e por pessoas, cada ser humano que passa na nossa vida, nos dá um ensinamento. Ok, ela não é uma boa pessoa, mas faz parte da sua historia.

– Você deveria ser psicóloga, não oceanógrafa.

– É, talvez, algum dia.

– Vem, vamos sentar ali.

– Nas pedras?

– Isso. – Caminhamos em silêncio. – Gostou do show?

– Um dos shows mais lindos que já vi.

– Sério? Ou tá falando isso para me agradar?

– Seríssimo.

– Posso te perguntar uma coisa?

– Pode.

– Nesses três meses que a gente ficou sem se ver e sem contato, você ficou com alguém?

– Não.

– Porque?

– Tem certeza que quer saber o porque?
– Sabe que a curiosidade minha é maior que tudo.
– Porque eu sou apaixonada por você, Rosa.

– Não fale assim, você está enganada.

– Não estou, e se por um momento eu achar que realmente estou… Foi o melhor engano que aconteceu na minha vida.

– Isa, você sabe que não podemos. Eu não aguentaria, você muito menos.

– Eu sei.

– Eu também não posso pedir para você me esperar, esperar um ano e pouco, eu não posso atrasar sua vida, vai que você conheça alguém bacana.

– Não sei o que te dizer. – Isa abaixou a cabeça e fechou os olhos.

– Está bem. – O coração apertado, uma vontade de ser dela para sempre. – Vamos ficar aqui até Luna mandar mensagem dizendo que está em casa?

– Acho que é melhor, porque se chegarmos antes, e seus pais acordarem ou ficarem sabendo no dia seguinte, ficaremos como duas irresponsáveis. E Se ela chegar primeiro, podemos dizer que a deixamos no portão e esperamos ela entrar e fomos passear por ai.

– Bem pensado.

Depois de quase duas horas recebi mensagem da Luna. Durante duas horas ficamos em silêncio olhando o mar. Não era um clima de raiva ou de qualquer sentimento negativo, parecia mais um silêncio preventivo. Quando é melhor ficar calada para não complicar mais as coisas.

Voltamos para a casa.

Conversei com a Luna, chorei, abri meu coração. Minha irmã não me deu o melhor conselho, sei que mais pra frente só iria piorar a dor, afinal eu estou disposta a me afastar da Isa pelo bem dela. Mas o conselho da minha irmã, me fez bem, é meio ilusório aproveitar os últimos três dias que me resta aqui, e aproveitar da melhor maneira.

 

 

Continua…

Já leu?

A flor – Parte I

A flor – Parte II

A flor – Parte III

A flor – Parte IV

A FLOR – PARTE V

A FLOR – PARTE VI

 

A FLOR – PARTE VII

A FLOR – PARTE VIII

 

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