A FLOR – PARTE V

20 dias depois.

Isabelle e eu não paramos de conversar, ela é minha única amizade, sempre disse que queria um dia conhecer onde ela nasceu e morou por muito tempo. Recentemente surgiu a oportunidade, seu pai e sua madrasta farão aniversário de casamento, ela vai e me chamou para ser sua acompanhante, somos amigas e ela me convidou. Não iria recusar.

– Bem vinda à Gramado. – Isa estava super animada.

– Meu Deus, como aqui é frio! – Reclamei.

– Pois é, aqui é bem frio. Até eu que nasci aqui, por morar em Fortaleza quando volto, estranho pra caralho. – Pegamos as malas e andamos para fora do aeroporto. – Tio Gu! – Isa saiu correndo parecia uma criança, saindo da escola e encontrando com o pai no portão.  – Rosa, vem aqui, deixa eu te apresentar o Tio Gu! Ele que me ensinou tudo na fazenda.

– Muito prazer senhorita Rosa, seja bem vinda. – Ele estendeu a mão em um gesto respeitoso.

– Muito prazer, senhor?

– Tio Gu. Pode me chamar de Tio Gu! Eu não sou tio da Isa, sou funcionário da família dela, mas ví essa guria nascer, andar a cavalo e a dar trabalho!

– Tio! –  Isa ficou vermelha.

– Já vi que Isa nem sempre foi santa. – Resolvi entrar na brincadeira.

– Essa guria tá mais pra capeta do que santa.

Foi um passeio divertido, até que chegamos na fazenda Baum, onde a família da Isa mora, um lugar lindo com algumas casas e armazéns em volta, mas nada se compara a beleza da casa principal. É uma casa gigante!

Fui muito bem recebida pelo pai e a madrasta dela. Como chegamos já anoitecendo, apenas comemos e fomos dormir. O dia seguinte ela iria me levar por um tour na fazenda.

– Sabe andar de cavalo?

– Nunca montei nesse bicho em toda minha vida, tenho até um pouco de medo, é muito alto! – Isa deu uma risada divertida. – É sério.
– Calma, o bicho sente se você ficar com medo, ele também vai ficar com medo e aí não vai dar certo essa combinação, vem aqui. Deixa eu te apresentar meu cavalo. – Ela me levou até a baia de um cavalo branco, lindo, enorme e forte. – Esse é o Zeus, meu cavalo – Isa passou a mão nele e os dois parecia ter uma conexão. – Vem aqui, passe a mão nele, ele gosta de carinho. – Fui timidamente me aproximando até conseguir, ele é manso. – Ele gostou de você.

– Como sabe?

– Ele não bateu a pata e nem relinchou, eu vou selar ele e vamos conhecer as terras, vou te mostrar tudo, desde os vinhedos, até a produção dos rótulos das garrafas. Meu pai não gosta de terceirizar nada, o vinho sai prontinho daqui.

Montei no cavalo, ela subiu e eu fiquei na frente e ela atrás, várias vezes ela me deixou em pânico, porque ela soltava as rédeas do cavalo e eu ficava por comandar o bicho sozinha. Ela morria de rir com meu desespero.

Em um dia conheci todo o processo, Isa tem jeito para isso, apesar de ser oceanógrafa, ela se daria muito bem se acaso quisesse assumir os negócios da família.

Voltamos para casa só à noite cansadas e mortas de fome. Tivemos um jantar agradável, seus pais são excelentes companhias. Fomos para uma sala com eles, tomar vinho e conversar coisas bobas.

– Rosa! – Isa me gritou. – Vamos! Assim o festival vai acabar.

– Calma, estou me agasalhando, é muito frio aqui. – Saí do quarto trancando a porta.

– Está linda. – Ela abriu um sorriso na hora que me viu, tive que usar algumas roupas dela, pois meu guarda roupa não é preparado para tamanho frio.

– Você também.

Chegamos até a cidade, está acontecendo um festival de comidas típicas. A fazenda fica próxima a uma comunidade, então apesar de ser em Gramado que é uma cidade grande, esse festival era apenas para aquela vila, todos nos olhava curiosos, claro que todos conhecem Isabelle, mas creio que o assunto era quem sou eu.

Ela foi muito educada e gentil com todos que se aproximavam, a maioria funcionários e funcionarias do pai dela. Eles parecem ser uma família bem querida aqui. Isabelle é a gentileza em pessoa, e eu adoro isso nela. É tão difícil encontrar alguém gentil assim.

– Vem comigo, quero te apresentar o melhor lanche daqui. – Ela me estendeu a mão e saiu me guiando no meio das pessoas. Até que chegamos ao destino. – Essa barraquinha faz o melhor lanche de pão francês com carne de churrasco e molho do universo! Tu vai amar!

– Tu? – Perguntei.

– É, você!

– Seu sotaque está voltando, guria! – Tentei imitá-la e logo ela ficou vermelha. – Vou mudar na minha bio, no lance de passa-tempo predileto de “ler” para “deixar Isabelle Baum com o rosto corado”.

– Há há há  sem graça – Ela me mostrou a língua e caímos na risada. –Companheiro, dois sanduiches no capricho aqui por favor! Muita carne! – Comecei a rir do seu entusiasmo, ela me encarou. – Quer refrigerante agora ou quando o lanche ficar pronto?
– Quando o lanche ficar pronto.

– Tudo bem. Meu Deus você é linda, Rosa. – Ela arrumou a lateral do meu cabelo. – Obrigada por ter vindo comigo.

– Jamais recusaria um convite seu, Isa. – Fiz um carinho em seu rosto.

– Bah Isa! Guria, quem é viva sempre aparece! – Um rapaz todo simpático apareceu.

– Edu! – Os dois se abraçaram. – Edu essa é a Rosa!

– Que namorada mais bela você tem, Isa!

– Não somos namoradas. – Isa ficou vermelha.

– Bah, sério? Venho observando vocês duas desde que tu entraste na festa. Estava de mãos dadas e você com cara de boba apaixonada!

– Somos amigas apenas. – Ela retrucou rapidamente.

– Mas formariam um belo casal. – Edu retribuiu gentil. – Preciso ir, estou jogando naquele bar com alguns amigos, qualquer coisa apareçam por lá.

– Me desculpe por isso, acho que agora entendo porque as pessoas tanto nos olham, e eu ainda fui e peguei na sua mão. Me desculpe Rosa.
– Imagina, Isa.

– Olha, aqui você é minha amiga, não precisa ficar colada em mim. Se quiser se encontrar alguém e quiser ficar, juro que não haverá problema.

– Eu sou bem tranquila, já te disse isso. E prefiro ficar aqui com você. E não solte minha mão por comentários. Eu não me importo. Você se importa?

– Eu não! É até uma honra andar com mulher tão linda.

– Digo o mesmo!

POV ROSA

Comi dois lanches, não aguentei estava delicioso, pelo menos Isa me acompanhou e comeu a mesma quantidade do que eu. Aqui é lindo, esse vilarejo  é tão lindo parece coisa de filme. As pessoas daqui são tão agradáveis. Agora entendo de onde vem toda essa gentileza da Isabelle.

– Gostou do passeio? – Isa me perguntou enquanto caminhávamos até o carro.

– Amando tudo! Isso aqui é lindo, e meu Deus. – Coloquei a mão na barriga. – Comi tanto.

– Eu também comi muito.

– Você pensa em voltar a morar aqui?

– Não. Claro que nunca vou dizer nunca, mas, não penso em voltar.

– Quero te levar para conhecer onde nasci, conhecer minha família, eles vão amar você!

– Acha mesmo?

– Acho muito! É impossível não gostar de você. – Ela ficou vermelha, como eu adoro deixa-la assim. – Você iria?

– Claro! Seria ótimo.

– Posso te perguntar uma coisa? – Ela fez um sinal de consentimento. – Quando estamos na barraca de doce, do nada você ficou tensa eu fiz algo?

– Não! Meu Deus, me desculpe, Rosa… Você não fez nada, eu realmente fiquei tensa,  é que eu vi uma grande amiga da minha ex… E agora provavelmente ela sabe que eu estou aqui e vai me caçar por todo o vilarejo. E provavelmente nesta hora ela deve estar ciente que eu estou muito bem acompanhada.

– Espero não ter ferrado a sua vida.

– Não, de jeito algum, ela que ferrou minha vida por um tempo. Eu vivi um relacionamento abusivo por anos. Ela falava coisas que me diminuíam como ser humano, como mulher e até mesmo como namorada. Das coisas mais infantis como que eu não sabia beijar direito ou transar. Sei que é algo bobo, mas, quando se é adolescente nós ficamos nos importando com tudo, não há muita confiança e autoestima quando o assunto é adolescente.

– Sim, concordo com essa coisa de sermos inseguras demais na adolescência, precisamos ser aprovada por tudo e todos. Essa sua ex é bem escrota! Também já passei por um relacionamento abusivo, estilo aquele vídeo da Jout Jout, o não tire o batom vermelho.

– Mas nos libertamos!
– Sim! E se sua ex aparecer, eu vou provocar ela até ela perder a noção… Se bem que ela não parece ter muita noção. Se ela vier falar algo, vou responder ela no mesmo nível.

– Que Deus me prive de vê-la. – Ela abriu a porta do carro. – Vamos descansar, amanhã vou te levar em uma rua que só tem loja de souvenirs e artesanato local, é muito legal.
– Ótimo!

POV ISA

Estou impressionada com Rosa, assim que chegamos na rua do artesanato, ela virou a louca das compras, o que tem sido bem engraçado.
Quem diria, que um dia eu contrataria uma garota de programa, ficaria amiga dela, ao ponto de traze-la para conhecer onde nasci e cresci.

Ela tem um sorriso lindo, um jeito encantador. Rosa e Anita são a mesma pessoa, mas são tão diferentes. Acho que meu pai está certo, eu estou me apaixonando por ela, ainda não sei se é bom ou ruim.

– Ora ora, quem é viva sempre aparece. – Aquela voz, eu conheço bem… Merda, é minha ex.

– Pode usar a frase feita de que um bom filho a casa retorna. – Tentei ser simpática. – Como está?

– Me diga você, está tudo bem?

– Estou ótima.

– Se divertiu muito ontem a noite?

– Sim, estava com saudades das festas e festivais daqui. Fora a companhia que ajudou muito.

– Cade ela? – Vi sua cara ficar vermelha de raiva.  – Quero conhecer a morena misteriosa que estava com você. Ou já dispensou ela como fez comigo?

– Priscila, por favor, supere. Eu não te dispensei, tivemos uma historia, mas acabou. Tenho muito respeito por você. E respondendo sua pergunta, eu não dispensei-a, ela está na loja aqui da frente. Inclusive, se me der licença, vou atrás dela.

– Não precisa querida, cheguei! – Rosa apareceu linda e saltitante, com o cabelo solto (que estava preso antes). – Desculpe a demora. – Sem aviso prévio ela se agarrou em meu pescoço e me roubou um selinho. Fiquei sem entender nada, mas feliz pelo breve contato de nossas bocas. – Ai moça, desculpe, nem te vi aí.- Rosa estendeu a mão para um cumprimento no qual não foi correspondida. – Quem é ela?

– Minha ex namorada. – Disse sem jeito, afinal não me orgulho por ter namorado alguém tão amarga.

– Noiva. Ex noiva. – Priscila me corrigiu. – Fomos noivas.

– Ah, agora eu entendi… – Rosa correu os olhos pelo corpo de Priscila.

– Entendeu oque? – Priscila estava totalmente vermelha.

– Ai, moça… Não sei se falo isso. – Rosa estava totalmente diferente, atrevida e sarcástica, até parece que a Rosa saiu de cena e estava diante de Anita.

– Moça não. Meu nome é Priscila.

– Ah me desculpe, Beatriz.

– Não, é Priscila.

– Tanto faz. – Rosa disse sem olhar nos olhos dela, eu fiquei esperando pelo momento em que Priscila surtaria. – Mas vou falar, é que ontem estávamos passeando, e as pessoas daqui são um amor! Elas nos paravam, e na maioria das vezes diziam para a Isabelle que agora sim ela mostrou que tinha bom gosto… Que ela subiu de nível. – Rosa soltou uma risada… Ela está determinada em tirar Priscila do sério, e por um milagre Priscila não avançou no pescoço dela.

– O que você tá querendo dizer?

– Exatamente isso que você entendeu! Não fique nervosa comigo, tire satisfação com quem disse. – Rosa pegou em minha mão. – Tchau querida. – Ela saiu me puxando sem olhar para traz.

– Meu Deus, você tem noção do que fez?

– Tenho! – Ela caiu na risada. – Admito que ela de cara fechada, até que me deu medo.

– Como você conseguiu fazer isso? Eu teria me borrado de medo na primeira frase.

– Digamos que ser Anita as vezes me ajuda. Ela tem coragem de dizer e fazer coisas que geralmente Rosa não falaria.

– Você provocou o diabo sabia?

– Pois então que ela volte para o inferno! Mulher tosca, eu ví ela chegando em você como se fosse sua dona. Me subiu uma raiva, soltei meu cabelo, passei um batom e fui linda enfrenta-la. – Ela foi para me defender, eu não resisti e dei um abraço apertado nela, no qual fui correspondida. –  E me desculpe pelo selinho.

– Tudo bem, eu vou sobreviver. – Começamos a rir. – Sério, não me peça desculpas por isso.

– Você sente algo por ela?

– Não. Só respeito, mas não sinto nada, nem atração.

– Temos mais quatro dias para fazer ela se contorcer de raiva. –  Ela disse e eu não resisti e caí na risada. –  Amo ver você sorrindo e rindo.
Continua…

A FLOR – PARTE VI

 

Já leu?

A flor – Parte I

A flor – Parte II

A flor – Parte III

A flor – Parte IV

 

 

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