A FLOR – PARTE VI

POV ROSA

Eu amo souvenir! Tudo que pode enfeitar em casa ou em qualquer lugar eu amo. Decoração e coração, é essa a relação dessas duas palavras. Comprei seis chaveiros, sim, seis. Onde usar? Não sei, até porque eu uso o mesmo chaveiro faz dez anos, ou mais.

Amo o clima frio daqui, no começo me incomodou, mas hoje eu amo.
Os pais da Isa são super gentis e carinhosos. Entendo bem o porque dela ser assim. Em geral, o vilarejo inteiro é lindo as pessoas são incríveis (tirando a ex dela. Meu Deus, como Isa se encantou por aquela bruxa? Vai entender não é?

Hoje é nosso último dia aqui, haverá uma festa típica no vilarejo que é patrocinada pela vinícola do pai de Isa. Comida típica e muito vinho (já sei que vou comer muito). Faz muito tempo que eu não sei o que é ser bem recebida, bem tratada, e aqui eu fui recebida e tratada de um modo maravilhoso. Os pais dela não nos questionaram sobre nada, como nos conhecemos e o que somos. O que somos uma para outra.

Ver a Isa tão feliz, integrada a um lugar me deixou com uma vontade de fazer parte do universo dela. Eu não sou cega, sei que ela é uma mulher linda e as vezes me pego olhando-a com desejo. Também como não olhar? Por mais que minha profissão seja universo paralelo e eu extremamente diferente de Anita, eu não tenho memoria falha, eu lembro dos nossos encontros, do jeito em que ela se transforma da pessoa tímida e insegura na pessoa fogosa e confiante… Lembro de como ela me pega de jeito, ela é incrível.

 

Tentando analisar a situação em uma ótica imparcial, eu sei que ela é areia demais para o meu caminhão. Ela é uma profissional de sucesso, de família tradicional, pode ter a mulher que quiser. Ela não escolheria se apaixonar por uma mulher que é prostituta.

– Rosa? – Isa bateu na porta. – Rosa? Está pronta?

– Estou! – Terminei de abotoar minha camisa. Peguei a minha carteira e abri a porta do quarto.

– Nossa! Você está linda!

– Você também está linda. Ok que isso não é novidade mas, você realmente está linda.

– Gostou? Gostou mesmo? – Confirmei com um gesto. – Valeu. Bom, vamos que meus pais já foram e estão nos esperando.

Saímos de casa e fomos até o galpão onde estava acontecendo o evento.

– Meu Deus, que mulheres lindas! – O pai dela veio ao nosso encontro. – Desculpe a indelicadeza, mas preciso falar, vocês formam um belo casal.

– PAI! – Isa ficou vermelha.

– Desculpe, não resisti.

– Não liguem meninas, ele é muito cara de pau.

– Verdade, sou mesmo. Desculpe meninas.
– Tudo bem! – Sorri abertamente e me sentei do lado dela.

– Meninas, nos dê licença, precisamos dar um oi para o delegado. Já voltamos. – Os dois saíram.

– Desculpe pelo meu pai. – Ela disse tímida.

– Ele é fofo e divertido. E não precisa pedir desculpas, ele não me ofendeu.

– Ele não tem limites! – Isa caiu na risada. – É por essas e outras que acho que puxei a minha mãe.

– Como ela se chamava? – Perguntei curiosa.

– Ela quem?

– Sua mãe! Não é dela que estamos falando?

– Ah sim, na verdade eu me referia a minha madrasta que no fundo é minha segunda mãe, tanto que nem a chamo de madrasta, reparou?
– Sim, você chama a Clarice de mãe, acho isso lindo. É lindo como vocês duas se amam, como tem carinho, geralmente filhos não se dão bem com a segunda esposa do pai.

– Sou diferentona. – Ela sorriu. – Eu gosto muito da Clarice, depois que minha mãe morreu, meu pai caiu em depressão, Clarice devolveu a vida para ele. E eu acredito muito que pessoas são um presente que Deus nos dá no momento certo. Clarice foi o presente que meu pai precisava.

– Isso é lindo.

– O que?

– Você achar que pessoas são um presente.

– Mas são.

– Espero um dia ser o presente de alguém. – Ela me olhou nos olhos e sorriu.

– É Rosa.

– Oi? O que tem eu?

– Não você, alguns minutos atrás você perguntou o nome da minha mãe. O nome dela era Rosa, igual a seu nome.

– Nossa, porque nunca me disse antes?

– Não sei. Não lembro muito da minha mãe, apesar de estar consciente quando ela se foi, não sei se isso é bom ou ruim. Só sei que não lembro muito. Não lembro muito de momentos nossos, mas lembro da música predileta dela, do perfume que ela usava, do hidratante. Lembro da risada e da mão dela segurando a minha, a textura da mão. – Os olhos dela se encheram de lágrimas, por instinto abracei-a.

– Ela tem muito orgulho da filha que tem, tenho certeza.

– Desculpa atrapalhar o casal. – A ex dos infernos ataca novamente.

– Não atrapalha, não, imagina, querida… Qual seu nome mesmo?

– Qual é, no fundo você sabe. Isa, preciso falar com você. – Ela cruzou os braços.

– Pode falar. – Isa respondeu calmamente.

– É em particular.

– Rosa, se importa?

– De modo algum, querida, vai lá.

– Prometo voltar o mais rápido possível. – Ela beijou meu rosto e saiu.

POV ISA

– Ok, para aqui. – Dei um basta na andança. – Estamos andando a mais de cinco minutos e você não diz nada. O que quer?

– Isso. – Priscila me roubou um beijo, mas me afastei.

– Está louca?

– Isa, me escuta. O que nós vivemos foi importante demais, significou muito pra mim, nós precisamos ficar juntas!

– É, realmente você está louca.

– Estou! Estou desde que você me abandonou aqui.

– Ei ei. Eu não abandonei você, eu terminei antes de ir e se tem uma culpada entre nós por nosso namoro..

– Noivado.

– Enfim, se tem alguma culpada é você! Que sempre me colocou pra baixo. Sempre me fez de gato e sapato, sempre disse que você era demais para mim e que eu deveria ser agradecida por ter você! Um casal, um casal que se ama de verdade, Priscila, não enaltece apenas um. Eles são melhores juntos! E no nosso caso você brilhava e me queria de plateia para te aplaudir por qualquer mínimo gesto que você fazia. Acabou o amor!

– Não acredito que acabou o que você tinha por mim. Você me idolatrava.

– Uma hora a gente cansa de ser trouxa. – Passei por ela. – Vou voltar para minha mesa.
– Vai voltar para aquela puta?
– Olha só como fala dela! – Segurei firme no braço dela. – Ela é mil vezes melhor do que você… em tudo!

– Me solta, você está me machucando! – Soltei seu braço imediatamente. – Você gosta dela mesmo.

– Gosto muito e por favor, acabou o amor não acabou meu respeito por ti. Tu segue seu caminho e me deixa em paz.

Saí sem olhar para trás, não ouvi um pedido dela para voltar. E melhor que foi assim.

Quando voltei, Rosa estava cercada de meus amigos, todos rindo e conversando. Uma cena agradável de se ver, Rosa sorrindo é uma cena extremamente linda.

– Estamos contando seus micos para ela! – Edu e meus outros amigos, se divertindo com Rosa, me zoando, era demais para mim.

– Calem a boca!

– Sério que você caiu no lago com moto e tudo? – Rosa não parava de rir.

– Eu estava aprendendo a andar… E, meu Deus, calem a boca vocês!

Tivemos uma noite divertida, regada a comida, vinho e muita risada. Como sinto saudades dos meus amigos, saudades de tudo aqui. Mas tudo o que é bom acaba.

No dia seguinte

POV ROSA

– Nem sei como te agradecer por ter ido comigo. Foi muito bom. – Isa me deu um sorriso.

– Nem precisa agradecer, eu que amei conhecer um pouco do seu universo, foi maravilhoso! Já estou com saudades do tempero daquela comida maravilhosa, do vinho e dos seus pais também.

– Tenho certeza que você irá mais vezes. – Ela sorriu me encarando. – São muitas sacolas, você desfalcou o artesanato da minha cidade, trouxe tudo. Quer que eu te ajude a levar até seu apartamento? Por mais que tenha elevador, uma mala enorme e várias sacolas é complicado.

– Olha, eu super aceito sua ajuda. Estava pensando em fazer duas viagens mas, mesmo estando no meu prédio é melhor não arriscar, afinal, isso é Brasil.

– Te acompanho com maior prazer. – Ela pegou as sacolas e ativou o alarme do carro. Nunca fomos de ficar em silêncio, mas, ficamos pela primeira vez naquele silêncio que incomoda até chegar no meu andar. Abri a porta ela deixou na entrada as sacolas. – Bom, vou indo, você deve estar enjoada da minha cara.

– Imagina, você é linda.

– Ah sou? – Ela disse em tom divertido. – Conte-me mais sobre! Gosto disso.

– Hummm. – Coloquei a mão no queixo como quem tivesse pensando. – Bom, você é doce, gentil, tem um coração enorme. É muito inteligente, linda e uma excelente companhia… E tem um abraço gostoso.

– Abraço gostoso?

– É, você não abraça as pessoas por abraçar. Quando você abraça alguém, você abraça por inteiro.

– Tipo assim? – Ela me surpreendeu me agarrando em um abraço gostoso.

– Exatamente assim.

– Você já passou por algum momento onde você quer algo mas, tem medo de querer? Medo de fazer e tudo virar uma merda? Mas ao mesmo tempo você sente que precisa fazer.

– Ok, isso é bem confuso. – Tentei descontrair. – Mas, sei lá. – Ela me encarava sem piscar, começou a fazer carinho no meu rosto, senti minhas pernas tremerem.

– Me desculpe, mas eu preciso. – Senti sua boca se juntando a minha de um jeito doce e aos poucos sua língua foi tomando minha boca. Me agarrei a sua nuca, sinto que isso é errado mas não consigo resistir a ela. Depois de alguns minutos ela desfez nosso contato. – Preciso ir, até qualquer hora.

– Até. – Não saiu nada mais do que isso.

 

Continua…

Já leu?

A flor – Parte I

A flor – Parte II

A flor – Parte III

A flor – Parte IV

A FLOR – PARTE V

 

 

 

 

assinatura-paula-okamura-fw

Celine Ramos
Baiana, feminista, negra e publicitária. Fundadora do SouBetina. Vivo na ponte-aérea Salvador-São Paulo. <3