A FLOR – PARTE VII

Sete dias depois.

Não paro de pensar nela, e pra piorar estou sentada na frente do notebook, sem saber como responder o seu e-mail. Ela não quer nada demais, apenas um programa. Acho que foi a única forma dela se aproximar, já que eu não atendo suas ligações e nem respondo suas mensagens.
Pode parecer fácil, seria juntar o útil ao agradável sair com ela.
Mas a questão é que me envolvi emocionalmente com ela, eu não posso cobrar para fazer sexo com ela. Eu não conseguiria ser profissional a esse ponto.
Preciso respondê-la, eu preciso …

“ Oi Isa, tudo bem? Olha eu não vou mentir, eu tenho sim espaço na agenda esse mês, porém eu não posso fazer isso. Não conseguiria separar as coisas, nos beijamos e somos amigas. Espero que me entenda, mas preciso recusar sua oferta.”

Três meses depois.

POV ISA

Rosa e eu mal conversamos, acho que estraguei tudo depois que roubei um beijo dela, apesar de sentir nos olhos dela que ela também queria. Minha cabeça está tão confusa. Eu sinto tanto falta dela. Falta da conversa, risada, do abraço, do cheiro. Acho que me apaixonei pela pessoa errada. Digo, pensando bem, a pessoa certa, porém na profissão errada.

Adoro os domingos, sempre vou passear pela cidade, sei que dirigir pode ser algo estressante, mas, na verdade é algo que eu amo fazer. Me relaxa.
Nunca fui muito de ir ao parque da cidade, mas hoje me deu uma súbita vontade, e agora entendo o porque. Rosa está sentada em um banco, chorando feito criança com o celular na mão.

– Rosa? O que foi? – Ela se assustou quando me viu, mas não disse nada a principio, apenas me abraçou apertado. – Calma, respira.

Ficamos um tempo abraçadas, sentia seu corpo tremendo com o choro forte. Eu não sabia o que tinha acontecido mas se alguém fez mal a ela, eu não sei do que sou capaz.

– Minha avó acabou de falecer. – Ela voltou a me agarrar, sei bem como é perder alguém muito importante. Nessas horas não tem muito o que falar, então apenas abracei-a.
Ficamos em silêncio por um bom tempo, comprei água para ela.

– Desculpe pelo meu descontrole, molhei toda sua blusa com meu choro… Foi mal.

– Tudo bem, não me importo com blusa, sinto muito por sua perda.

– Obrigada.

– O que vai fazer agora?

– Queria muito voltar pra minha terra, ver minha família. Afinal meu pai perdeu a mãe dele, mas… Não dá.

– E porque não? Seu pai precisa de você

– Mas lá eu vou encontrar minha ex, e ela torna minha estadia um inferno! Eu não quero isso, meu pai precisa de paz.

– Ele precisa de você. Olha. – Segurei em sua mão. – Eu sei que estamos sem muito contato ultimamente, e eu assumo a culpa disso. Mas, você foi conhecer meus pais, e se você deixar, eu quero conhecer seus pais, sua irmã. O lugar onde você cresceu, e querendo ou não, posso ajudar a afastar sua ex, do mesmo jeito que você me ajudou.

– Isa…

– Eu prometo, não encostar em você, eu só vou ficar do seu lado, te acompanhar, te dar apoio e tranquilidade pra ficar com sua família.

– Você faria isso por mim?

– Claro, será um prazer conhecer sua cidade.

POV ROSA

Dois dias depois.

Acabo de chegar na minha cidade, Isa está comigo, meus pais sabem que estou acompanhada de uma amiga, só não sabem como a conheci. As pessoas da minha rua me cumprimentam e nos olham com curiosidade.

– Mana! – Luna veio correndo em minha direção, como é bom ver minha irmã. – Ai, que saudades!

– Saudades de você pequena. Nada pequena pensando bem.

– Oi. – Luna ficou olhando para Isa. – Minha irmã tinha razão, você é bem linda.

– LUNA! – Dei um grito tentando repreender minha irmã.

– Agradeço o elogio, prazer em te conhecer. – Isa abraçou-a. – Sua irmã já tinha falado de mim?

– Fala sempre… Fala muito, sendo bem sincera, só fala de você. – Luna disse sem se preocupar no constrangimento que ela estava me causando.

– Luna! Pare! – Dei um tapa no ombro dela. Enquanto as duas se acabavam de rir.

– Mal chegou e sua irmã já te estressou, filha? – Minha mãe apareceu na janela.

– Ela consegue essa proeza, mamãe! – As três caíram na risada.

– Filha! – Meu pai apareceu no portão e veio correndo me abraçar, tadinho caiu no choro em meus braços. – Que saudades de você, minha princesa.

– Saudades de você também, papai. – Segurei em seu rosto, olhei bem em seus olhos. – Eu te amo muito, meu pai, amo muito mesmo.

– Eu também filha. Ainda bem que tenho vocês comigo. – Ele puxou Luna para um abraço entre pai e filhas. – Nossa. – Meu pai encarou Isa. – Filha você tinha razão, ela é linda. – Voltei a ficar vermelha com a indiscrição do meu pai. – Me desculpe, nem me apresentei. Sou José, pai da Rosa e da Luna.

– Muito prazer em conhecer o senhor. Sua filha te ama muito, fala muito do senhor.

– Ela é incrível. – Meu pai me deu um beijo na bochecha.

– Sim é. – Isa me olhou. – Muito obrigada por me hospedar na sua casa.

– É muito simples, mas é uma casa cheia de amor. Seja bem vinda. – Meu pai abraçou-a.

– Muito obrigada.

– Agora vamos entrar, sua mãe preparou um almoço bem gostoso pra nós.
Algumas horas passaram, vou dividir meu quarto com a minha irmã, Isa ficará com o meu. Ela conquistou a família inteira, como é impossível? Bom, é possível porque é ela. Optamos por não sair de casa por hoje, teremos mais sete dias para aproveitar a cidade, as belezas naturais e o artesanato.
Meu pai está tão fragilizado, estou com tanta dó. Espero que ele se recupere, minha avó não gostaria de vê-lo assim.
O café da manhã foi animado. Se eu não cortasse o assunto, Isa jamais pararia de conversar com meu pai. O santo dos dois bateu logo de cara.

– Esse lugar é lindo. Tô encantada.

– É um pedaço do paraíso na terra. Sinto muita falta disso aqui, desse povo bom, sem maldade, sem pressa, que ajuda os outros. – Percebi que ela me olhava atentamente. – Tô falando demais, não é?

– É lindo o entusiasmo que você tem ao falar daqui. Porque não volta?

– Aqui não é para mim, por mais que tem pessoas boas, tem algumas pessoas ruins e infelizmente eu não conseguiria lidar com isso. Aqui eu sempre vou ser a prostituta.

– O povo deveria cuidar mais da vida… Mas se você realmente ama aqui e um dia tiver vontade de voltar, volte. Ligue o foda-se.

– É, talvez. – Percebi que estava sendo vigiada atentamente, mas tentei ignorar o medo. – Luna te amou sabia? Na verdade a minha família inteira.

– Eu estou completamente apaixonada pela sua família, eles são engraçados e gente muito boa.

– Claro! Assim como eu! – Caímos na risada. – Estava pensando que poderíamos almoçar em casa, depois pegaria meu barco e te levaria para o mar, para você ver o mar daqui, afinal, é sua especialidade. Luna já vai grudar na gente mesmo, qualquer coisa eu deixo ela em uma ilha se ela me encher muito o saco.

– Por mim fechado! Menos a parte de deixar a Luna na ilha.

– Puxa saco! Vamos almoçar, minha mãe deve já estar com tudo pronto.

Andamos conversando, brincando, fui falando da historia de cada casa ali, até a casa que todo mundo dizia ser assombrada. Até tentei por medo nela, mas sem sucesso.

– Olá, Rosa. – Estava prestes a entrar em casa, quando uma voz familiar e nada agradável se manifestou atrás de nós duas… Parecia um pesadelo. – Bem vinda de volta.

– Erica… Oi, tudo bem? –  Tentei manter minha calma.

– Tudo, melhor agora.

– Vamos entrar, Isa. – Segurei no braço da Isabele que demonstrava não gostar nenhum pouco da cena. Fui puxando ela para dentro de casa.

– Nossa, quanta pressa! Não vai me apresentar a moça? – Erica com aquele maldito olhar, de quem adora me ver com medo dela.

– Isabele. – Isa estendeu sua mão, de maneira seria tentando intimida-la.

– Erica. – Ela respondeu em um gesto cordial. – É de onde?

– Rio Grande do Sul.

– Se nota pela branqueza da pele. É amiga da Rosa?

– Vai lhe acrescentar?

– Oi? – Erica disse sem entender.

– Perguntei, se essa informação vai acrescentar alguma coisa em sua vida. – Nós três ficamos em silêncio, as duas se encarando extremamente irritada, parecia até aquelas cenas de filme de bang bang. – Foi o que eu imaginei. Vamos Rosa.

– Você manda nela? – Erica perguntou furiosa.

– Não. – Isa também respondeu do mesmo tom.

– Então porque não ficamos conversando um pouquinho mais?

– Porque eu me recuso a ficar em companhia de gente que não presta.

– Isa, chega. Vem, vamos entrar. – Entrei no meio das duas chamando a atenção da Isa pra mim. Ela me olhou e se permitiu ser guiada por mim até dentro de casa.

– Quem é você pra me dizer isso? Não tem medo de mim? Deveria… – Erica gritou fazendo com que Isa voltasse todo o caminho até ela.

– Você não me causa medo, me causa dó. Mas não me faça pegar raiva de você, acredite é você que terá que ter medo de mim. E já aviso, do portão pra cá é área privada. Se entrar eu chamo a policia por invasão.

– Nervosinha você. – Erica provocou Segurei nas mãos da Isa e sai arrastando ela para dentro de casa. – Tchauzinho, foi muito bom conversar com vocês, nos vemos depois.

POV ISA

– Ela é ridícula, Rosa!  – Eu estava puta de raiva com vontade de dar um soco no meio da cara daquela ridícula.

– É eu sei…

– O que foi, gente? – Luna perguntou.

– Erica estava na porta de casa, pelo visto a noticia que eu cheguei já voou.

– A cadela de guarda já rastreou teu cheiro, que merda. – Luna disse nervosa.

– Luna olha a boca! –  A mãe delas gritou da cozinha.

– Desculpa, mãe! – Luna fez uma cara de vergonha. – E você como sempre se cagando de medo dela.

– Me respeita, poxa…

– Te respeito, te amo, maninha… Mas, por favor não se prive de fazer suas coisas, de curtir a cidade e as atrações.

– Ela não vai se privar, vou ficar sempre por perto. – Tranquilizei Luna.

O almoço foi ótimo, a mãe dela cozinha muito bem… O clima não estava dos melhores por conta do fator Erica, mas tentamos manter um clima. Rosa me levou até o barco dela, me apresentou o mar. Ela entende muito de navegação, mesmo o barco dela sendo simples, sistema operacional manual, ela se sai muito bem. Dá pra ver que ela é uma mulher do mar.

O destino pregando peça, eu, uma mulher apaixonada pelo mar e por seus mistérios me apaixono por uma filha de pescador, que sonhava em seguir a profissão do pai.

– Anda mais rápido, Rosa! – Luna gritou.

– Quer controlar o barco? – Rosa fingiu irritação.

– Eu não sei! O pai num deixa.

– É porque ele sabe que você não daria conta.

– Calunia! Se serei médica, claro que consigo pilotar um barquinho.

– Mas você vai estudar anos e anos para isso. Estar aqui é para poucos!

– Ai meu Deus, olha quem fala, pelo amor de Deus Isa me ajuda.

– Eu não falo nada! Sei que ela é mandona. – Aproveitei que Luna estava distraída e pisquei para Rosa que sorriu e corou suas bochechas.

– Fica quieta pirralha! – Rosa gritou para Luna. – Se continuar reclamando eu te largo ali naquele monte de areia.

– Isso eu não vou deixar! – Gritei entrando na brincadeira.

– Como assim? Me traindo?

– Ela me ama, queridinha! – Luna veio me abraçar. – Aceita que dói menos! Ela vai me defender de você, sua bruxa!

– Eu já entendi tudo, já vi que estou perdida na mão de vocês duas… Se comportem! Sou eu que estou no comando.

– Ui – Luna caiu na risada.

 

Continua…

Já leu?

A flor – Parte I

A flor – Parte II

A flor – Parte III

A flor – Parte IV

A FLOR – PARTE V

A FLOR – PARTE VI

 

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