A FLOR – PARTE VIII

POV ROSA

O dia foi bem legal, apesar do começo conturbado. Navegar me fez muito bem, foi tão bom ver minha irmã alegre, brincando. Me fez até lembrar de como eu era. Não que hoje eu seja uma pessoa amarga, só não confio muito nas pessoas. Sendo bem sincera acho que além da minha família, confio apenas em Isa. Isa que me surpreende a cada momento, sempre sorrindo e a vontade com a minha família.  Nunca tinha estado com ela perto do mar, e ver ela explicando coisas para mim e minha irmã, com tanto encantamento, tanta paixão. Assim como eu, ela é apaixonada pelo rio. De uma forma diferente, mas intensa como o meu jeito de amar o mar.

– Tá pensando em que? – Luna me tirou do transe.

– Que susto, pirralha! – Dei um tapa em seu braço.

– Foi mal, só queria saber no que você tá pensando… Apesar que aposto que sei em QUEM você está pensando. – Ela se sentou na minha frente com uma cara de riso.

– Han? Sabe de nada, garota! – Desconversei.

– Tá pensando na Isa… Cara, porque vocês duas não namoram? Ela é legal.

– Que isso? Que intimidade é essa? Você conhece ela não faz nem dois dias.

– Você não traria alguém pra conhecer sua família, seu povo e o seu mar. Fora que, ela demonstra ser muito legal, e você olha para ela de um jeitinho todo bobo.

– Cala a boca, Luna. – Ordenei, mas ela caiu na risada e eu fiquei completamente vermelha.

– Como a conheceu? – Ela perguntou e eu estremeci. Não podia contar como realmente a conheci.

– Bom. Foi em uma festa.

– Tá mentindo.

– Tô não.

– Você é minha irmã, te conheço. Olha Rosa, papo sério de irmãs. Eu vou fazer 17 anos, não sou nenhuma adulta mas sei bem como funciona as coisas, sei da sua profissão. – Ela dizia firme e aquilo me assustou. Sei que minha irmã sabe da minha profissão, mas nunca pensei que iriamos conversar sobre. – E sou sua irmã, a aldeia inteira sabe, alguns fazem fofocas, mas eu não ligo, eu sei quem você é. Você é a melhor do mundo! Sei que não é só pelo papai que você entrou nessa, sei que você teme pelo meu futuro e faz isso por mim também. E eu vou ser eternamente grata por isso. – Ela segurou nas minhas mãos. – Eu sei que não é o que você espera ouvir de mim. Mas eu já não sou tão inocente assim, eu tenho noção das coisas e bom, sou curiosa ao extremo e não resisti, eu procurei por seu nome no google e não achei absolutamente nada. Mas um dia, vi você atendendo um celular que geralmente você não usa muito, falando de uma tal Anita, aí eu te achei. Ou melhor, achei Anita.

– Luna!

– Calma, calma antes de arrancar meu fígado. Do mesmo jeito que você não é exatamente Anita, acredite, eu li aquilo como se não fosse minha irmã. Eu não contei isso a ninguém.

– Porque está me contando isso agora?

– Porque quero que você me veja como sua melhor amiga, Rosa. Podemos falar de tudo, eu cresci, eu jamais vou te julgar.  Imagino que lá na capital você não tenha muitos amigos.

– E não tenho, só tenho ela.

– É, mas não dá pra falar dela pra ela.

– OK. Assumo, eu gosto dela.

– Ela também gosta de você, tá estampado na cara dela.

– Olha… Esquece, vamos dormir!

– Não, calma ai, não se trave, você pode me contar tudo!
– Tem coisas que você não precisa saber, são meio pesadas.

– Tem haver com sexo? Com a sua profissão? Porque sinceramente desde que li que Anita gostou da noite que passou com uma moça linda de olhos azuis que inclusive tirou uma boa nota e está até agora no ranking como primeira, sou capaz de apostar que é da Isa que você está falando. – Ela jogou isso de uma só vez e eu estava completamente envergonhada, uma parte queria simplesmente pegar Luna, colocar de bunda pra cima e bater nela como fazia quando ela aprontava quando menor. E a outra simplesmente não conseguia lidar com o fato de estarmos falando sobre Anita, sobre sexo e minha profissão, eu fiquei paralisada. A conversa mais parece um monologo do que um dialogo. – Só pode ser ela, ela tem olhos lindos azuis, pele clara… É linda, gentil e deve ser realmente boa de cama. – Luna ficou olhando para mim esperando respostas, porém nada. – Olha, se quisermos ser melhores amigas seria bom você falar comigo também.

– Tá, tá… A conheci em um programa, ela foi minha cliente, ela é sim a mulher de olhos azuis. Luna, eu escrevo coisas improprias pra sua idade minha irmã.

– Rosa, quero te contar algo, que não contei nem para a mãe. Eu namoro um menino da minha escola, já faz uns sete meses.

– Sério?
– Sim, ele chama Sergio, é da minha sala. Mora aqui perto, trabalha na feira, ele é legal, mas não quero me envolver, daqui um ano eu vou em busca do meu sonho, acho que não fui feita para namorar a distancia.

– Ele sabe disso?

– Sabe, na verdade não namoramos, mas combinamos dele ficar só comigo e eu com ele. Se fosse namoro mesmo, eu não teria problema de contar pros pais e nem de trazer ele aqui. Ele é especial, muito doce e respeitador. Ele me esperou.

– Como assim te esperou?

– Eu perdi minha virgindade com ele. – Ela disse com um certo receio.

– Nossa. – Percebi que ela estava preocupada se levaria um tapa na cara, não vou mentir, um buraco gigante se abriu e eu cai em um abismo, meu bebê cresceu e eu nem percebi. Apenas senti que ela precisava de mim. – Foi no momento certo? Você se sentiu confortável?

– Me senti bem sim. Aconteceu uns amasso quentes, mas eu não deixei, conversamos e ele me respeitou. Um dia me senti preparada, ele estava sozinho em casa, falei para os pais que ia na biblioteca, fui para a casa dele e tudo aconteceu.

– Usou camisinha?

– Sim! – Ela viu que gritou e diminuiu a voz . – Na semana seguinte eu até tentei marcar uma consulta no ginecologista, mas por ser menor de idade não sei se me atenderiam. E se a mãe soubesse ia ficar desconfiada.

– E iria mesmo… Mas ir no ginecologista é uma questão de saúde, independente se você tem uma vida sexual ativa ou não. Toda garota depois que menstrua precisa ir.

– Sei, eu queria muito ir. – Ela colocou a cabeça no meu colo e se deitou na cama. – É bom falar disso com alguém que eu confio a minha vida. – Foi impossível não sorrir.

– Também me sinto mais leve por falar sobre a Isa com você.

– Falar o que? Você mal falou! Me diz ai… Você comentou da família dela, teve clima de romance nessa viagem?

– Mais ou menos, eu sempre fujo disso.

– Porque?

– Por mais que antigamente ela tenha sido minha cliente, ela é uma mulher incrível. Ela jamais namoraria com alguém que tem essa profissão.

– É, não é bacana saber que sua namorada está indo pra cama com outro ou outra… Mas porque você não para? Seu curso está acabando, é daqui a dois anos. A gente se vira aqui, eu posso trabalhar em algum quiosque, Isa tem uma boa condição de vida, ela pode te ajudar, sei que ela não reclamaria.

– A questão não é ela reclamar… Eu não me sentiria bem em viver do dinheiro dela. Falta um ano e um mês para que eu finalmente me forme, até lá terei segurança financeira para ficar um bom tempo sem me preocupar com grana, poderei procurar um emprego na minha área de formação… E ajudar aqui como faço todo mês. Não quero sugar o dinheiro dela.

– É, te entendo, mas sei lá… Eu queria ela como minha cunhada, não sei se ela vai esperar um ano e pouco, vai que surge alguém totalmente disponível, você vai estar perdendo uma chance de ser feliz!

– Eu não posso, mana… Não posso.
– Independente de qualquer coisa, tô com você.

– Também tô com você sempre mana… Mas você sempre vai ser meu bebê.

– Ok, só não me trata como um na frente dos outros, ok? – Caímos na risada.

Adormecemos na minha cama, como nos bons tempos, dormimos de conchinha, comigo sempre segurando ela como se ela fosse meu ursinho de pelúcia.

– Bom dia, meninas. – Isa surgiu na cozinha, acordou mais tarde que nós.

– Bom dia, dormiu hein!¿ – Luna

– É, demorei a pegar no sono. – Isa deu um abraço na Luna.

– Algum problema? – Perguntei, enquanto me levantava para pegar a bandeja de frios na geladeira.

– Não, tudo bem. – Ela deu um sorriso amarelo, o que me deixou preocupada. – Obrigada.

– Gente, o Sergio falou que amanhã vai ter um show aqui na vila. Vai ser coisa chique vai ser gravação de DVD, e adivinha de quem, mana?

– Artista local? – Perguntei com certo desinteresse.

– Não, daquela banda que você curte, a banda Lotus!

– Tá me zoando, garota? – Dei um pulo da cadeira.

– De jeito nenhum! Olha aqui o panfleto. – Luna me mostrou o celular. – Isa, conhece a banda Lotus?

– Não conheço, toca que tipo de som?

– MPB conceitual… Ah sei lá, só sei que é muito bom! Luna, reserva com ele três ingressos, quero ir!

– Três? – Luna perguntou curiosa.

– É, você, eu e a Isa. – Falei animada.

– Eu pago o meu. – Isa se manifestou.

– De jeito nenhum, é a minha convidada! – Como estava perto dela, dei um beijo em sua bochecha. Não sei porque fiz isso, foi algo involuntário, eu fiquei tímida, ela também… E minha irmã com cara de bobona, momento constrangedor.

– Tá bom, tô indo para a aula, e na volta eu trago os ingressos serão pouquíssimos mas ele consegue isso pra mim. Até mais tarde meninas.

– Tchau, boa aula! – Isa gritou e eu me sentei perto dela. – Cadê seus pais?

– Já saíram, minha mãe para associação, meu pai para o píer.

– Meu Deus que vergonha, dormi mais que deveria.

– Que isso Isa, relaxa, meus pais não são chatos com isso. Não vão te achar uma imprestável, pelo contrário eles gostam muito de você.
– Eu também gosto.

– Estou te achando com uma cara estranha, teve pesadelo?

– Não, só insônia mesmo… Preocupada.

– Com o que? – Perguntei.

– Nada que valha a pena ser dito… Estou bem.

– Se diz, confiarei em você. – Tomei um pouco de café. – Estou tão animada de ir em um show da Lotus, é maravilhoso, eles cantam minha musica predileta.

– Qual é?

– Impressões. É linda essa canção.

– Depois vou procurar sobre essa musica, preciso conhecer uma musica pelo menos.

– Sim, veremos juntas, só tem no Youtube. – Ela deu um sorriso e continuou a comer. Eu percebi que ela não estava tão bem, sei que não podia fazer muito, então, adiantei meu plano e fui correndo até o meu quarto e voltei com um envelope. – Toma.

– Que isso? – Ela perguntou enquanto limpava a mão para pegar o envelope. – Nossa que envelope chique! Tem meu nome! – Ela se mostrou animada. E ela abriu e foi lendo atentamente. – Sério?

– Sério, me formo só daqui dois anos e um mês, mas… A galera já se programou, contratou local de festa, banda e um monte de coisa… É mal de economista planejar tudo com antecedência. Eu não convidei ninguém. Mãe, pai, Luna e você. Eu não sei se vai dar para você ir, mas se fosse eu queria te pedir um favor.

– Claro que eu vou! Que favor?

– É que tem a dança dos pais com as filhas e tal… Depois tem a dança com, com pessoas especiais. – Geralmente é namorados e namoradas, mas preferi não citar isso. – E sei lá, queria que você dançasse comigo. – Eu toda tímida e ela toda sorridente.

– Será uma honra dançar com você.

– Sério?

– Claro! – Ela disse animada se levantando da cadeira. Veio ao meu encontro e me deu um abraço gostoso, não hesitei, abracei-a de volta.

 

 

Continua…

Já leu?

A flor – Parte I

A flor – Parte II

A flor – Parte III

A flor – Parte IV

A FLOR – PARTE V

A FLOR – PARTE VI

A FLOR – PARTE VII

 

 

 

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