A FLOR – PARTE X

– Bom dia. – Saí da cozinha dando de cara com ela.

– Bom dia, Rosa. – Isa me respondeu sonolenta.

– Já tomou café?

– Não, eu ia começar.

– Deixe tudo aí e vem comigo, nessa cesta tem tudo o que precisamos para passar o dia.

– Passar o dia onde?

– No barco, em alto mar.

– Sem a Luna? Não é melhor esperar ela voltar?

– Tudo bem, a pirralha não vai ficar magoada, foi ela que me deu essa ideia.

– Como assim?

– Depois te conto. Vem.

Saímos em direção ao alto mar, coloquei o barco em um ponto seguro.

– Tá com muita fome? Vou preparar a mesa lá dentro.

– Estou, mas, para um pouco, me diz o que está acontecendo.

– Como assim?

– Ontem ficamos em silêncio depois de eu ter me declarado para você, hoje estamos em alto mar sozinhas.

– Falei com a Luna sobre nós, e ela me deu o conselho meio irresponsável se formos pensar por um lado, mas que no fundo pode ser que funcione.

– Qual?

– Temos três dias aqui, porque não aproveitar esses três dias e esquecer de tudo o que nos espera quando formos embora, esquecer de tudo e ter aqui um lugar só nosso, onde a gente possa ser e fazer o que quiser¿

– Isso só vai nos machucar mais. – Ela estava triste. – Mas se é isso que você pode me dar, se são três dias, tudo bem.

– Não precisa fazer isso se não quiser. – Coloquei minha mão em seu ombro.

– Eu quero, eu só não queria fazer isso só por três dias. – Ela segurou minha cintura e me abraçou.

– Vem, vamos tomar café.

Tentamos mascarar o clima, tirar a melancolia, para isso eu até me empenhei a contar piada para ela, e funcionou. Depois ficamos sentadas abraçadas, ela me explicando atentamente tudo sobre o nível do mar, o relevo e o ecossistema. Admito que é um esforço enorme ficar prestando atenção nisso enquanto estou com os braços dela me segurando sentada de conchinha. Também falei das lendas locais, do maior peixe que já fisguei e algumas historias.

– Você está ficando corada de tanto sol.

– Pois é, esqueci de passar protetor. Você me empresta o seu?

– Claro, deixa que eu passo. – Me levantei e fui até a bolsa, voltei e me sentei virada para sua frente. – Olha para mim. – Fui passando protetor no rosto dela. Não resisti e roubei um beijo. Ela me retribuiu dando passagem e total comando. Me sentei no seu colo, suas mãos segurando minha cintura me apertando forte. – Vamos para dentro da cabine.

– Não, quero você aqui. – Ela desenlaçou meu biquíni e arrancou a parte de baixo com rapidez. Me deitou no chão e tirou seu biquíni e se deitou na sobre mim, me abraçou forte. – As vezes eu queria te odiar, seria tão mais fácil.

– Seria mais fácil… Mas como não consegue me odiar, melhor me fazer gozar. – Ela começou a lamber meu seio com vontade. O sol batendo no meu rosto, o barco se mexendo conforme as ondas e ela me devorando por inteira… Me fazendo senti-la em todas as partes do meu corpo. Segurei em seu cabelo quando ela tocou com a ponta da língua meu clitóris. Lambidas lentas e intensas que fizeram meu corpo tremer, meu coração acelerar e sentir como um furacão estivesse se formando em meu ventre.

Gozei… Gozei em sua boca.

Ela voltou a me beijar, com certa lentidão, como se quisesse que eu saboreasse meu próprio gosto.

Seus dedos começaram um vai e vem gostoso entrando em mim.

– Me faz sua, me faz sua eu não aguento mais. – Ela me penetrou com desejo. Um vai e vem gostoso, nossos corpos colados, suados e quentes.

Me agarrei em seu corpo, arranhei suas costas, beijei sua boca com loucura. Ela parecia não se importar com os arranhões, então continuei suprindo a minha necessidade de rasgar o corpo dela do mesmo modo que o tesão dela me rasgava por dentro.

Passamos a tarde inteira juntas, um fogo que não acabava e que não acabou, só voltamos porque já estava escurecendo.

– O dia foi bom, hein mana? – Luna apareceu me observando.

– Oi?
– Oi, tudo bom?  – Luna estava me zoando. –  Não finja que não entendeu o que falei.

– OK, mas não vou te responder.

– Nem precisa, sua cara já condena. Aff mana! Porque você não se permite viver isso sempre.

– Não dá.

– Ok, sua vida… Você que sabe, mas me diz, o que vocês fizeram hoje, além do obvio sexo.

– LUNA!

– Ok, não era obvio mas com a sua resposta agora ficou.

– Vamos deitar garota, você está muito abusada.

– Vamos, aposto que tá louca pra chegar amanhã e sair com ela de novo.

– Admito que estou sim. Só não sei onde leva-la.

– Tem um lugar bem bacana, amanhã anoto o endereço para você antes de ir para a aula. É super tranquilo dá para namorar bastante lá.
– Você está muito atrevida, mocinha.

– Vai reclamar da minha ajuda? – Ela cruzou os braços.

– Não, me passa tudo anotado amanhã. – Disse e ela começou a rir. – Para de rir, não é pra rir.

– Vou rir sim, e você também… Na verdade sorrir, não para de sorrir. – Fingi irritação e ela engoliu a risada. – Tá bom, vamos dormir.

Horas depois.

– Bom dia, Rosa.

– Bom dia, Isa… Vamos sair hoje, ok?

– Ok, vamos onde?

– Tem umas dunas aqui perto, tem um restaurante  e tem piscinas naturais.

– Ok, já me convenceu, vamos tomar café e vamos?

– Combinado.

Tomamos café com meu pai. Arrumamos umas bolsas e saímos em direção as dunas.

– Meu Deus, aqui é lindo.

– Sim, quem indicou foi a Luna. não conheço aqui.

– É lindo, quero andar nas dunas!

– Tá, vamos alugar um buggy.
Alugamos um buggy e decidimos sair por ai. Achamos a primeira piscina, antes de  entrar ouvimos uma voz.

– Nossa, acho que o destino está conspirando para nos encontrar.

– Puta que pariu, o que você está fazendo aqui?

– Digamos que eu não tinha nada para fazer hoje e resolvi seguir vocês.

– Que cara de pau. Mas ok, fica ai, é você que vai ver o que não quer. – Isa me abraçou.

– Como assim?

– Como assim, digo eu sua idiota.

– Gente, calma. Erica, vai embora por favor.

– Você está louca, baby? – Ela segurou meu braço. – Jamais vou deixar você aqui no meio dessas dunas com essa mulher.

– Eu não sou mais sua, nós não temos mais nada.

– Não não não não não… – Erica disse chorando.

– Erica me escuta, olha o mal que você já fez para mim, para minha família, até mesmo para você! Olha o tempo passando e você ainda focada em mim sendo que você poderia estar com alguém legal.

– EU NÃO ACEITO VOCÊ TERMINAR COMIGO! – Ela me abraçou apertado. – Rosa, você sabe, somos feitas para ficar juntas… Você sabe se você não ficar comigo eu vou fazer da sua vida um inferno. – Ela olhou no meus olhos.

– Então é assim? – Isa se intrometeu. – Você quer realmente que alguém fique com você por medo?

– Não se mete! – Erica gritou.
– Me meto sim e pode tirar a mão dela! – Isa  me soltou das mãos.
– Já falei para não se meter, sua vadia! – Erica deu um tapa na cara de Isa, que não deixou barato e imediatamente revidou. – Eu vou te matar. – Ela avançou em cima da Isa, as duas caíram no chão. Isa não deixou barato e deu um belo soco na barriga dela, fazendo-a parar.

– Olha aqui sua psicopata de bosta. – Isa pegou-a pela gola da roupa. – Escuta direitinho o que eu vou te falar, você não é bosta nenhuma! Se você é filha de uma família poderosa daqui, foda-se. O tempo em que isso valia alguma coisa já foi. E se você encostar mais uma vez na Rosa, ou tentar fazer algo para a família dela, eu juro, eu saiu de onde eu estiver, esfolo sua cara nas areias e depois eu peço para a justiça vir atrás de você e da sua família. E eu faço isso! Eu não tenho um pingo de medo de você, medo da sua família, da sua tradição ou de porra alguma que tenha ligação com você.

– Me solta! Tá doendo!

– E vai doer mais ainda se você não calar a boca!

– Vai se foder! – Erica cuspiu em Isa e em troca levou um belo soco na cara. Eu sei que o correto seria eu separar as duas, mas fiquei sem reação eu nunca tinha visto ou imaginado aquilo, jamais teria imaginado ver Isa tão nervosa e Erica com tanto medo. – Ai!

– Cala a boca e me escuta, eu vou te dar duas alternativas: ou você continua perseguindo a Rosa e a família dela e eu juro que eu vou atrás de você e te arrebento e acabo com você e a hierarquia da sua família. Porque acredite, se for para falar de poder, eu tenho mais que você. Se for para falar de família tradicional a sua não é nada perto da minha, e por mais que o Brasil esteja uma bosta, você seria fácil fácil condenada por agressão, abuso de poder e um monte de coisas que eu sei e tenho provas e testemunhas que você fez e te ponho atrás das grades. Porque seu poder de bosta não vai te livrar disso. O mundo é mais gigante do que essa cidade, e lá fora você não é bosta nenhuma. Você tem sorte dela e nem a família dela nunca terem dado queixa de você na policia, te processado você seria presa.  – Isa se levantou e puxou Erica para se levantar também porém sem solta-la. – Duas opções, ou você segue em frente, esquece que a família dela e ela existe. Some de vista, se vê na rua, não diga nem oi. Procura se tratar porque você é louca, melhora e tenta ter uma vida feliz. Ou você continua sendo psicopata e eu acabo com a sua vida. Com a sua vida e da sua família e mostro para toda cidade que o poder que vocês dizem ter, não passa de um bando de bosta amontoada que não serve para nada. E ai? Vai realmente pagar para ver ou vai ser esperta uma vez na vida? – Erica não falou nada, apenas me olhou brevemente, ela está toda machucada, encolhida pelo soco na barriga e com a boca sangrando pelo outro soco levado. Depois de anos de término de namoro, depois de anos ela fazendo a minha vida um inferno e da minha família, pela primeira vez eu ví nos olhos dela, um pouco do que ela era quando me apaixonei, eu ainda pude ler no seu olhar, ela estava com medo, e pelo visto tinha entendido que não daria mais.

– Eu vou embora… Eu não vou mais incomodar ninguém. Me solte.

– Não. Fale mais alto!

– Eu não vou gritar só porque você quer, isso é um abuso.

– E é justamente isso que você faz com os outros, sua imbecil. Anda, fala mais alto!

– EU NÃO VOU MAIS INCOMODAR NINGUÉM! – Isa a soltou, Erica ficou nos olhando.

– O que foi? Precisa de ajuda para subir no seu carro?  Sabe muito bem como eu vou te ajudar, não é?

Erica subiu no carro e saiu o mais rápido que pode.

– Você está bem? – Isa me olhou um pouco envergonhada.

– Haram.

– Tá assustada? – Ela se aproximou com cuidado.

– Admito que sim… Nunca te vi assim, nunca vi ela assim.
– Desculpe, mas é que foi a única forma que eu achei, falar como ela, agir com ela pra ver se assim ela se tocava… Talvez tenha exagerado mas, é que quando o assunto é você e a sua família eu… – Ela parou de falar.

– Eu?

– Por favor não me ache louca, mas, eu sinto um carinho muito grande pela sua família eu queria poder fazer parte dela, eles são tão incríveis, legais e de bom coração eu não posso nem imaginar alguém fazendo mal para eles eu fico put. – A interrompi roubando um beijo.

– Obrigada.

– De nada.

– Você está bem? Ela te machucou? – Apenas neguei com um gesto. – Vamos aproveitar o dia ok? – Ela segurou minha mão.

– Vamos.

Continua…

Já leu?

A flor – Parte I

A flor – Parte II

A flor – Parte III

A flor – Parte IV

A FLOR – PARTE V

A FLOR – PARTE VI

 

A FLOR – PARTE VII

A FLOR – PARTE VIII

A FLOR – PARTE IX

 

 

 

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Celine Ramos
Baiana, feminista, negra e publicitária. Fundadora do SouBetina. Vivo na ponte-aérea Salvador-São Paulo. <3