A FLOR – PARTE XII

POV ISA

Acordei na casa de uma estranha. Bom, pelo menos espero que essa seja a casa dela, porque a minha casa aqui é que não é. Minhas roupas jogadas no chão, cabeça doendo, meu estomago uma bosta… Eu bebi tanto mas, tanto ontem que sendo bem sincera nem sei se dei conta de transar com essa mulher.

Preferi não acordá-la, vai saber se ela estava tão bêbada quanto eu, talvez ela me contou sua vida inteira e como explicar que hoje, nem sei o nome dela.

Resolvi escrever um bilhete e sair.

“Oi, obrigada pela noite incrível, quem sabe a gente se esbarra por aí. Beijo”

Procurei meu carro e não achei. Ótimo, não estava louca tão louca a ponto de dirigir, peguei um taxi, fui até a boate e lá estava meu carro. Fui para casa correndo tomar um banho, e corri para o trabalho.

– Bom dia cinderela!

– Por favor Edu, não grita.

– Xii, mas eu estou falando normalmente. Bebeu muito não é mesmo?

– É, bebi.

– Caraca, você está com um chupão no pescoço! – Ele disse aos risos.

– Ham?? – Olhei assustada, nem tinha percebido. – Que bosta não acredito que ela me marcou!

– Ela? – Ele me perguntou surpreso.

– É, ela… Caso não saiba eu sou lésbica.

– Ok, não sabia… Estava até pensando em te apresentar para um primo meu, mas é melhor não.

– Isso, melhor não. – Retruquei sem muita paciência, ele ficou me olhando.

– Isa…

– Oi.

– Isso é estranho. – Ele disse baixinho.

– Eu ser lésbica?

– Não. Mas isso de trabalharmos juntos, como uma dupla. Você sabe tudo de mim, dos meus dramas familiares, das brigas e noites quentes com a minha esposa, sabe tudo dos meus filhos. Eu não sabia disso, de você… Entende?

– Entendo, mas, não é estranho Eduardo. Somos uma boa dupla, você tem vocação para falar mais e eu para ouvir.

– É, pode ser.

Abri meu e-mail e me tremi toda quando vi na caixa de mensagem um e-mail resposta da Irleand Galway ( é uma instituição que fica na Irlanda, faz uns oito meses que mandei um e-mail para eles, me candidatando para uma vaga como oceanógrafa, já tinha até me esquecido disso).

– Edu! – Gritei.

– Opa.

– Cara, vem aqui… Corre! – Chamei o Edu.

– Que foi?

– Olha isso

– PUTA QUE PARIU! ABRE LOGO, POW!

– Não dá, tô com medo.

– Medo do que?

– Sei lá, de ter um não… Sim.

– Ok, eu resolvo. – Edu tirou o mouse da minha mão e clicou em abrir o e-mail. – Pronto, vamos ler. – Olá senhorita Braum, recebemos sua proposta juntamente com seus currículos, pesquisas e teses. Nos interessamos muito, e gostaríamos de propor que você se juntasse a nós na Irlanda para trabalhar em oceanografia e nos ajudar a desenvolver nossas pesquisas, crescendo mutuamente. Aguardamos ansiosamente sua resposta. Assinado, National University of Ireland Galway.

– Meu Deus.

– Meu Deus mesmo, você conseguiu! Cara, você vai trabalhar no lugar que você sempre quis. Parabéns Isa!

– Calma, calma… Pera ai, eu não sei se vou.

– Como não? Como perder uma chance dessas?

– É que.

– É que o que? Olha, eu sei que você está acostumada com um Eduardo mais porra louca, pai de família aloprado que até hoje ainda confunde o lado de por a fralda, mas… Somos parceiros, pode falar comigo, desabafa. Sinto que não tem ninguém que você possa desabafar… Você precisa fazer isso! Prometo não te julgar. – Olhei para ele meio desconfiada. – Tô falando sério.

– OK, vou te contar tudo.

Passei as duas ultimas horas falando tudo, e ele escutando atentamente, meu drama amoroso e unilateral. Afinal, pelo visto sou só eu que sinto algo.

– Tá, deixa ver se eu entendi, você se apaixonou pela sua garota de programa.

– Sim.

– Você levou ela para conhecer seus pais e amigos… Ela fez o mesmo, até revelou o verdadeiro nome dela, coisa que ninguém além de você sabe.

– É.

– Cara na boa, eu fui conhecer meus sogros no dia do meu casamento, e eles me odiavam! Na verdade ainda me odeiam, dizem que eu sou um imprestável. Então eu sinceramente não acho que ela não goste de você. Você me disse que ela passou por um relacionamento traumático, é muito difícil alguém se abrir depois disso. E ela se abriu, abriu a casa dela, a vida dela. A família dela. Eu acho que ela gosta de você.

– Se gostasse ficaria comigo.

– Poxa, cada um é cada um. Ela tem os motivos dela. E ela já te disse o motivo.

– Não consigo entender, se fosse outra aceitaria.

– Tá, mas você mesma me disse que ela não é qualquer uma. E também não é interesseira.

– É, isso ela não é.

– Quanto a proposta de emprego, o que você vai fazer?

– Eu vou para a Irlanda. Não tem nada aqui para mim.

– Tem certeza?

– Tenho, vou imediatamente. Ficar aqui é lembrar dela o tempo todo.

– Duvido que acharei parceira de laboratório melhor do que você… Mas, super te apoio.

– Valeu companheiro… Ou melhor, valeu amigo.

Seis semanas depois.

Tudo certo, apartamento vendido e carro também. Visitei meus pais, eles ficaram tristes afinal, ficarei ainda mais distante geograficamente. Preciso me despedir dela agora, sei que hoje é dia da Rosa trabalhar. Rosa não, pensando bem, é dia de Anita. Me recuso a dizer que ela é a Rosa.

Fui até seu prédio, esperei ela sair, vi ela entrar em um taxi e ir para um restaurante. Não foi difícil conseguir uma mesa, distante mas consigo vê-la. Depois de quase uma hora, ela se levantou e foi a caminho do toalete,  a minha deixa.

Abri a porta ela estava em uma cabine, tranquei a porta e esperei ela sair.

– Isa?

– Anita.

– O que você está fazendo aqui?

– Te segui

– Isa, já te falei para não me procurar, não fazer isso.

– Eu vim me despedir.

– Como assim? – Ela estava visivelmente surpresa.

– Eu me mudo para Irlanda daqui a dois dias.

– Se…serio? – Ela respondeu gaguejando.

– É… Consegui um emprego em um lugar muito bom, irrecusável.

– Parabéns.

– Obrigada.

– Anita.
– Oi.

– Posso te dar um abraço?

– Uhum. – Ela disse com a voz embargada, com os olhos marejados. Me aproximei e abracei-a forte.

– Vem comigo para Irlanda.

– Não dá. – Ela disse baixinho. – Não dá. – Beijei seu pescoço, senti sua pele arrepiando, continuei, segurei em sua cintura e coloquei-a na pia. – Isa… – Não dei tempo dela terminar a frase, roubei um beijo dela, no qual ela respondeu prontamente. Foi como se meu coração voltasse a bater novamente.

– Saudades de você. – Disse atacando sua boca novamente.

– Também. – Ela parou o beijo. – Sinto tanto a sua falta.

– Anita? – uma voz masculina surgiu. –  Anita? – ela se afastou de mim.

– Oi, Rubens. – Ela disse descendo da pia arrumando o cabelo.

– Desculpa te incomodar, mas é que você está faz um tempo ai, está tudo bem? – O homem disse.

– Sim, eu estou terminando, me deu uma má digestão. Por sorte achei minha amiga. – Ela me olhou com certa tristeza. – E ela está me ajudando.

– Tudo bem, vou esperar aqui.

– OK, já estamos saindo. – Ela limpou o resquício de batom dela no meu rosto. – Eu preciso ir.

Não disse nada, apenas me recompus e saímos.

– Oi, querida. Você está passando bem? – Um homem de terno e gravata, totalmente preocupado e gentil. Não vou mentir, senti um puta ciúmes, afinal sei onde isso vai terminar.

– Estou bem Ru, obrigada. – Ela respondeu e ele ficou me olhando atentamente. – Ru, essa é a minha amiga Michele. – Estendi a mão em um sorriso cordial.

– Muito prazer, Michele.

– Olá Michele, muito prazer, obrigado por ajudado Anita… Foi uma feliz coincidência.
– Na verdade não foi coincidência, eu percebi que ela estava aqui, então aproveitei que ela foi ao banheiro e fui conversar com ela.

– Porque não se senta conosco. Eu não me importaria.

– Não, obrigada, eu preciso ir… Tchau Anita.

– Tchau Is… Michele.

– Tchau, Rubens. – Lancei um sorriso a ele.

– Tchau, querida. Tenha uma boa noite.

– Anita. Chamei, fazendo ela e Rubens olhar para traz.

– Oi. – Ela disse apreensiva.

– Me faça um favor, dê um recado meu a Rosa. – Respirei fundo. – Diz a ela que eu a amo. – Saí sem olhar para traz.

 POV ROSA

“ Diz a ela que eu a amo ”.

Viver quase dois anos com essa frase na cabeça é torturante.

Seu coração fica batendo apertado. Você sonha com esse momento.
Você sonha em como seria se ao invés de apenas ter ficado olhando ela sair do restaurante… Se ao invés disso eu tivesse soltado a mão do Rubens e tivesse me pendurado no pescoço dela, dizendo que a amava. Que fugiria com ela para qualquer lugar.

Que eu também a amo.

Nunca mais ví Isa, não recebi e-mail e nem mensagens no whatsapp. Ela simplesmente sumiu. E como me dói saber que ela sumiu da minha vida.

Será que ela está namorando?
Será que ela gosta de alguma outra mulher?

POV ISA

Dois anos na Irlanda, no começo foi difícil não tinha com quem conversar, todo mundo me olhava como seu eu fosse uma ET… A brasileira.

“Você morava em uma selva?”

“Na sua rua tinha macaco?”
“É carnaval o ano inteiro?”
“Sabe fazer caipirinha?”

Sim, isso é sério, eu escutei muito esse tipo de pergunta. A diferença é gritante desse país para o Brasil. A começar, aqui todos respeitam as leis, levam a sério essa coisa de politica e direitos humanos (ou seja, aqui é o paraíso).

Nada de jeitinho brasileiro.

O meu local de trabalho é um sonho, os recursos daqui são incríveis e trabalho em uma importante pesquisa. Sinto falta do Eduardo, queria ele comigo aqui, ele iria pirar. Meu apartamento é perto de tudo, inclusive do meu trabalho e da universidade onde eu faço pesquisa. Meus pais vieram me visitar, vieram de surpresa, acho que desde que cheguei foi o momento que eu mais fiquei feliz.
Não tem um dia em que eu não pense nela… Anita, Rosa… Eduardo uma vez me fez uma pergunta, se eu estava apaixonada por Anita ou Rosa, eu não tenho duvida que eu amo Rosa. Preferi nunca mais procurá-la, não conseguiria ler seu blog, ver suas fotos… Eu simplesmente não consigo.

Não vou mentir, já fiquei com outras mulheres, com uma, quase namorei. Ela é incrível, simpática, linda, alegre, mas não é a Rosa. Sua formatura está chegando, ainda tenho o convite guardado. As vezes me sinto em um desenho animado, com um anjinho em uma orelha e um diabinho em outra.

A diabinha diz que eu me humilhei de mais, que eu ví coisas que não tinha necessidade de ter visto, que ela não gosta de mim. Que eu fui um passa tempo e preciso esquece-la.

A anjinha, diz que eu preciso ir encontra-la, conversar de uma vez por todas. O prazo dela acabou, a formatura está próxima não tem mais porque ela continuar se prostituindo.

A anjinha também me diz que ela gosta de mim, que um dia ainda ficaremos juntas, e que eu preciso vencer meu orgulho e todos os pensamentos negativos e ir atrás dela e mais uma vez me declarar, dizer que eu ainda estou aqui.

Eu não sei o que fazer… O que pensar, o que dizer… Eu, eu realmente não sei.

Continua…

Já leu?

A flor – Parte I

A flor – Parte II

A flor – Parte III

A flor – Parte IV

A FLOR – PARTE V

A FLOR – PARTE VI

 

A FLOR – PARTE VII

A FLOR – PARTE VIII

A FLOR – PARTE IX

A FLOR – PARTE X

A FLOR – PARTE XI

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Celine Ramos
Baiana, feminista, negra e publicitária. Fundadora do SouBetina. Vivo na ponte-aérea Salvador-São Paulo. <3