A FLOR – PARTE XIII

POV ROSA

– Minha nossa senhora… Filha você está linda! – Meu pai me olhava com cara de pai babão. –  Não sei se mereço dançar com uma menina tão linda como você.

– Pai… Não chore! – Abracei-o emocionada.

– Vou tentar me controlar. – Meu pai disse rindo.

– Eu estou muito orgulhosa de você, minha filha.

– Honestamente eu não sei, mamãe, se eu mereço que você diga isso.

– Oxe, filha. Olhe para mim. – Minha mãe segurou no meu rosto. – Nunca deixe ninguém dizer que você não nos orgulha. Você foi guerreira, ninguém no mundo pode te julgar. Você nunca, nunca fez mal a ninguém. E nunca deixamos de te amar e de nos orgulhar de você.

– Mamãe… – Caí no choro como uma criança.

– Mana, não chore! Vai estragar a make que eu fiz. – Luna me abraçou.

– Desculpa mana, eu tô sensível hoje.

– Ai meu Deus! Imagina quando for minha formatura, eu vou estar uma pilha de nervos! Vem, você borrou o olho, vou fazer sua make de novo!

– Filha, vamos nos atrasar! – Meu pai disse preocupado.

– Calma, vocês dois fiquem calmos sentados ai. Já voltamos. – Luna disse me arrastando de volta para o quarto. – Você precisa se acalmar e segurar o choro.

– Vou tentar.

– Calma, você está feliz? – Luna me perguntou.

– Muito, tenho vocês aqui… E é isso. – Preferi tentar não pensar nela.

– Falta ela, não é? – Ela me encarou.

– Falta.

– Nenhum notícia?

– Não, nenhuma notícia.

– Pretende ir atrás dela?

– Como? Irlanda não é uma ilha. E vai saber, são dois anos! Muita coisa pode ter acontecido.

– Sinto muito, mana.

– Eu também.

Maquiei e fomos até o local de evento. Tudo muito chique, pessoas comemorando felizes, eu não fico atrás, minha família está comigo. Luna está encantada, meus pais também, e extremamente orgulhosos de mim.

– Está na hora de dançar! Formados e formadas, venham ao centro da pista de dança tragam seus pais, suas mães, aquelas pessoas que foram essenciais para que vocês estivessem hoje, comemorando esse dia de glória. – O locutor disse animadamente.

– Vamos, pai. – Segurei sua mão.

– Vamos, filha… Tire foto viu, Luna! Quero mostrar para os companheiros de pesca como eu estou chique de terno do lado da minha filha linda.

– Pode deixar pai. – Fomos até a pista, a valsa começou a tocar, meu pai pelo visto realmente tinha ensaiado muito, postura correta, dançando sorrindo pelo salão. – Filha, obrigado por tudo.

– Eu não fiz nada, papai.

– Claro que fez, você nos tirou da miséria, me ajudou quando perdi uma perna, juntou dinheiro suficiente para sua irmã seguir o sonho dela de ser médica. As vezes fico pensando nos apertos que você passou, nas humilhações, eu me sinto um pai de merda. – Seus olhos encheram de lágrimas.

– Não chora pai, eu te amo muito. O senhor é o homem da minha vida.

– Minha filha, me prometa, prometa que a partir de hoje você vai se priorizar. Priorize a sua felicidade, seu bem estar e seu coração. Você já fez muito pela nossa família. Hoje nós temos uma casa boa, um carro bom. Dois barcos, não nos falta nada e para sua irmã também não irá faltar, se priorize, ouviu bem?

– Sim, pai.

– Eu tenho muito orgulho de você, minha princesa. Sabe, para os pais a filha nunca cresce, mas hoje, te vendo formada, com esse vestido lindo. Filha, você é a mulher mais linda da festa.

– E o senhor é o homem mais lindo da festa!

– Modéstia à parte, sou mesmo. – Começamos a gargalhar.

– O senhor é o homem da minha vida, papai. – Abracei-o bem apertado.

– E você sempre será a minha princesa, Rosa. – A valsa acabou, o locutor voltou a falar, eu não dançaria a segunda música com a pessoa que eu queria dançar.

– Agora é a hora de dançar com aquela pessoa que é especial, que te faz sorrir, que te deu apoio. Ou, que te faz suspirar. E que comece a música! – O locutor disse animado.

Quando estava já sentada olhando para os pares se formando, escutei uma voz.

– Oi. – Meu corpo se arrepiou, eu não pude acreditar. Isa toda produzida, de vestido longo, cabelo penteado, toda maquiada, vestida a caráter.

– Isa! Que bom te ver. – Luna disse, quebrando o gelo.

– Bom te ver também, Luna. – Ela deu aquele sorriso que me faz derreter. – Senhor, Senhora, muito bom ver vocês.

– Oi. – Foi à única coisa que consegui dizer.

– Oi… Eu vim para dançar com você. – Ela estava vermelha de tímida. – Se você ainda quiser. – Ela estendeu a mão, eu não podia acreditar, meu coração parecia sair pela boca.

– Vamos. – Dei a mão para ela, e saímos a caminho do centro da pista de dança. – Obrigada por ter vindo.

Ela juntou nossos corpos e começou a me levar no ritmo da musica.

– Obrigada você por ter me chamado para dançar com você. Foi muito bonito ver você e seu pai dançando.

– Faz tempo que você está aqui?

– Não, cheguei um pouco antes da valsa, fiquei olhando, talvez, alguém fosse dançar com você, sei lá… Tanta coisa pode acontecer em dois anos. Mas como você se sentou, eu resolvi me manifestar.

– Você está diferente. – Eu disse encarando-a.

– Pois é, um pouco mais velha?

– Não, está diferente. Mas um diferente… Diferente. – Fiquei sem graça e começamos a rir.

– Gosto disso. – Ela soltou

– Do que?

– De te ver sorrindo.

– Não acredito que você está aqui… Não dá, é surreal.

– Mas eu vim.

– Veio só para isso?

– Não é só para isso, mas, por isso. É sua formatura, é algo importante, não é?

– Bom, para mim claro que é.

– Para mim também! Sei que quando me deu o convite, me deu com o coração. E se eu prometi que estaria aqui, eu estaria e ponto.

– E está. – Eu disse toda boba, olhando aquelas piscinas naturais que ela chama de olhos.

– E estou. – Ela ficou tímida e sorriu abertamente. A musica acabou, aplaudimos a banda e cada par voltou para sua mesa, a festa estava apenas começando.

– Preciso ir.

– Porque?

– Eu já fiz o que precisava fazer.

– Não, não… Fica. A não ser que você tenha algum compromisso.

– Não, eu não tenho nenhum compromisso.

– Pois fique então.

– Está bem… Eu fico. Não vou atrapalhar?

– De jeito nenhum.

Eu não sei como definir a noite de hoje, de repente ela na minha frente, depois ela sentada na minha mesa conversando muito com a minha família. Luna resolveu dançar e chamou Isa que a acompanhou pela noite inteira, eu até tentei acompanhar o ritmo das duas, mas não consegui. Então, apenas fiquei olhando-a dançar e curtindo meus pais.

Acho que a minha parte preferida de toda a formatura, foi quando meu pai deu a ideia de tirarmos uma foto familiar, Isa pegou o celular para bater, ele tirou o celular da mão dela e pediu para um desconhecido tirar a foto e abraçou-a trazendo para participar.

Meu coração derreteu em ver meu pai fazendo aquilo.

Amanheceu, a festa acabou por volta das sete da manhã. Achei que meus pais não iriam aguentar ficar no meio do som alto. Mas eles amaram. Isa disse que iria pegar um taxi e se hospedar em um hotel, mas a Luna deu a excelente ideia dela ficar em casa (na verdade essa ideia eu mesma pensei, mas, fiquei com medo de propor isso e ser um pouco… Como dizem, de ir com sede ao pote).

– Meus pés doem muito, caralho! – Luna reclamou se jogando no sofá.

– Luna, olha a boca. –  Minha mãe  repreendeu.

– Desculpa, mãe.

– Meus pés também doem…

– Acho que de todos está doendo. – Meu pai se jogou no sofá da sala. – Mas o pé que mais tá doendo é o direito. – Ele disse gargalhando.

– Aff pai, olha aí uma vantagem de se ter uma prótese.

– Pois é filha. Olha, todo mundo está acabado, então vamos organizar o banheiro! São dois banheiros, cinco pessoas.

– Temos que ver sobre o quarto. – Minha mãe disse enquanto tirava os brincos.

– Verdade. – Meu pai concordou.

– Eu posso dormir aqui na sala. – Isa se manifestou, sentando em uma poltrona. – Eu só preciso que você me empreste um pijama Rosa, porque eu não trouxe muita coisa aqui na mochila.

– Claro, te empresto sim.

– Então fica assim, Luna e Rosa dormem no quarto da Rosa. Eu e minha velha no quarto de hospedes e Isa aqui na sala.

– Ótimo. – Isa concordou.

– Banheiro? – Luna perguntou.

– Nós três aqui. – Meu pai sinalizou para ele, minha mãe e Luna, tomamos banho no banheiro social. Rosa e Isa, no banheiro do quarto da Rosa.

– Está bem. Isa você quer tomar banho primeiro? – Perguntei-a.

– Não, pode ir.

– Ok, eu vou indo então.

Tomei um banho demorado e relaxante, o dia pedia por isso.
Quando saí fiquei sentada na cama escutando Isa conversar com meus pais e se despedirem. Ela entrou totalmente sem jeito, me pediu licença, pegou uma toalha e roupas limpas. Depois de um belo banho, ela saiu.

– Onde posso deixar a toalha molhada? – Ela saiu de repente me tirando a atenção.

– Pode deixar ai.

– Tá bom, cadê a Luna?

– Tava entrando no banho. A menina comeu horrores e ainda chegou e foi comer um miojo.

– Sem fundo.

– É minha família é boa de garfo.

– Quero te entregar uma coisa. – Ela começou a revirar sua mochila. Achei! É seu presente de formatura. – Me levantei e peguei a caixinha, abri e era uma linda pulseira surgiu na minha frente. – Gosta?

– Sim, é linda!

– Que bom que gostou.

– Você ficou bem nesse pijama.

– Obrigada. – Sabe aquele silêncio constrangedor? Pois é, ficamos assim por alguns minutos. – Obrigada por me hospedar aqui na sua casa.

– Imagina, você veio da Irlanda pra dançar comigo, te hospedar nem é o mínimo do mínimo.

– Vou me deitar.

– Desculpa por só ter meu sofá para te oferecer.

– Seu sofá é espaçoso, grande e aconchegante, está ótimo… Vou indo. –  Ela foi saindo.

– Isa!

– Oi.

– Eu recebi seu recado..

– Meu recado?

– É a Anita me deu seu recado.

– Ah, é? E onde ela está?

– Não sei, faz dois meses que eu disse adeus a ela… Tirei o site do ar, quebrei o MacBook, quebrei o iPhone, cortei o chip… Exclui o e-mail. E as roupas dela eu doei por aí.

– Você se desfez de tudo?

– Sim, joguei tudo no mar. Para não ter resquício nenhum dela.

– Nossa…

– Pois é.
– Sente falta dela? Da vida dela?

– Nenhuma.

– Fico feliz que ela tenha dado meu recado, pena que não ganhei uma resposta de volta.

– É que eu prefiro dizer pessoalmente.

– E aí?

– E ai que eu também te amo… Sendo bem sincera, eu acho que eu me apaixonei por você na primeira noite que te conheci. Te amei quando você me levou para conhecer sua vida, sua família. E desde então eu não consigo deixar de te amar, de pensar em você. Eu não sei se ainda podemos, se você ainda sente algo por mim, ou é só uma amizade. Eu não sei se algum dia você vai entender o porque eu não larguei tudo para ficar com você mesmo já te amando naquela época, mas… É isso, eu te amo.

– Eu também te amo. – Ela me encarou. – Eu não sei se realmente algum dia eu vou entender porque você teve que terminar esse ciclo, mas eu acho que quando a gente ama alguém, como eu amo você, a gente tenta entender, começa do zero. – Fui me aproximando dela, me pendurei em seu pescoço. – Eu não resisto a você. – Ela me roubou um beijo, começando de maneira lenta. Sua língua foi ganhando espaço na minha boca, meu peito batendo acelerado tamanha felicidade. Escutamos um barulho na porta e desfizemos o contato. A  peste da minha irmã. – Luna, me desculpe.

– Desculpas peço eu. É que eu quis tanto ver essa cena, que me permiti ficar olhando e babando.

– Bom, eu já vou indo. – Isa se manifestou.

– Certeza? – Luna perguntou. –  Se quiser posso ficar jogando vídeo game na sala. Dar um tempo a mais.

– Não, de modo algum, está todo mundo cansado. Eu vou indo. – Isa me olhou e me deu um beijo na bochecha. – Descanse.

– Descanse também.

– Tchau, Luna.

– Tchau, Isa. – Minha irmã respondeu e Isa sumiu das minhas vistas. – Vocês formam um lindo casal.

– Coisa feia ficar vendo os outros beijando.

– Não é “os outros”… É você e ela, eu amo esse casal. Estão namorando?

– Não sei, eu disse que a amo, me declarei… Ela disse que ainda me ama, nos beijamos e aí você chegou.

– Acho que isso vai virar namoro.

– Tomara… Agora vamos deitar.

Luna deitou do meu lado, ficamos em silêncio.

– Mana – Luna me chamou.

– Oi. – Respondi.

– Sério?

– Sério o que?

– A mulher da sua vida disse que ainda te ama, ela está dormindo na sala e você vai ficar aqui do meu lado ao invés de ir lá e ficar com ela?

 

 

Continua…

Já leu?

A flor – Parte I

A flor – Parte II

A flor – Parte III

A flor – Parte IV

A FLOR – PARTE V

A FLOR – PARTE VI

A FLOR – PARTE VII

A FLOR – PARTE VIII

A FLOR – PARTE IX

A FLOR – PARTE X

A FLOR – PARTE XI

A FLOR – PARTE XII

 

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