Mil Borboletas – Parte V

Um ano e nove meses depois.

POV DIANNA

– Juro por Deus que se tiver que fazer mais uma prova do Brad eu me mato. Que prova difícil. – Holly disse colocando o capacete.

– Nem me fale, chegando em casa farei um belo chocolate quente pra nós, meu amor. – Abracei-a apertado.

Subimos na moto como sempre fazemos e fomos em direção a minha nova casa. Na verdade não é minha, ela é alugada, vendi a casa que sempre morei e hoje pago aluguel, uma casa bem menor, e sem lembranças. É como um HD vazio que eu vou enchendo aos poucos com sentimentos e sensações novas.

– Amor, tem um carro do governo em frente à sua casa, você pagou os impostos? – Holly me perguntou rindo.

– Juro que sim, deve ser algum engano. Vamos ver. – Dei um beijo em sua testa. – Boa noite, aconteceu algo?

– Não, você é Dianna Thompson? – O senhor me perguntou seriamente.

– Sim, senhor.

– Podemos conversar dentro da sua casa? – O outro oficial se manifestou.

– Claro. Por favor me acompanhe.

– Só nós três, ela não. – Ele apontou para Holly.

– Lamento oficial, mas ela é minha namorada, não escondo nada dela.

– Sendo assim, vamos os quatro. – Entramos em silêncio, para minha surpresa eles não revistaram a casa. – Pois bem senhorita, esse papel é seu? – Eles me entregaram a ficha de inscrição da época da escola.

– Sim, é meu.

– Pois bem, você como cidadã americana, sabe que estamos em um momento complicado, estamos em guerra. E como você disse que está disposta a ir para a guerra em amor ao país.

– Soldado, com todo respeito, eu sou gay, não entram pessoas gays no exército.

– Não existe mais isso. Nós fomos reeducados e aceitamos homossexuais. Faz dois anos que essa tese caiu por terra e pessoalmente eu sou gay assumido tenho marido e um filho de seis anos.

– Eu me recuso a ir para guerra!

– Infelizmente você foi escalada e não pode dizer não. O país espera por você daqui a um mês. Resolva suas pendências financeiras e profissionais, daqui um mês você embarcará para o Iraque.

– Sargento, eu não posso! Olha para mim, eu não tenho esse perfil! – Me levantei me colocando desesperada em sua frente. Olhei para Holly que estava paralisada.

– Estou obedecendo ordens, nos vemos daqui um mês. – Eles saíram sem aviso.

– Eu vou ligar para o seu pai, ele é o melhor advogado da cidade, ele vai me ajudar e isso tudo será resolvido. – Disse vendo Holly parada me olhando com os olhos cheios de lágrimas.

Feito isso, o pai dela, Frank voou para casa, a resposta não poderia ser pior. Como eu vou entrar na justiça, para não ir para a guerra. Se o governo é a justiça, é perda na certa.

– Papai, você poderia me deixar sozinha com a Dianna? – Holly pediu educadamente.

– Claro meninas. Eu sinto muito. – Frank disse me abraçando. – Confie em Deus querida.

A porta se fechou. Estamos sós.

Holly ficou me olhando com os olhos cheios de lagrimas, tentei me aproximar, mas não foi uma boa ideia.

– EU TE ODEIO! – Ela me deu um tapa.

– Calma. – Pedi, mas me atacou, dando murros nos meus ombros. Nervosa, forte, histérica e chorando como um bebê. Deixei ela descontar toda raiva, duas horas atrás eu estava preocupada com uma nota da faculdade. Agora preocupada em como vou sobreviver em território de guerra. – Bate, eu mereço.

– MERECE MESMO! POR DEUS! EU ESTAVA NA SALA QUANDO VI VOCÊ E SEU AMIGUINHO FRED ASSINANDO E RINDO, ACHANDO QUE IAM ZOAR COM O EXÉRCITO QUE NUNCA PRECISARIAM DE VOCÊS! VOCÊ TEM NOÇÃO?

– Eu sinto muito, Holly.

– EU TE ODEIO, DIANNA!

– Eu te amo, Holly.

– VOCÊ É RIDICULA. – Ela tentou me dar mais um tapa, mas segurei a mão dela. – ME SOLTA!

– CHEGA! Um segundo tapa eu não vou permitir! Você parou para pensar que daqui um mês, eu vou estar em um lugar exposta a todo perigo, e querendo ou não, você estará aqui! Vai poder tomar um café na esquina, vai continuar dançando aos domingos. Vai poder ir à faculdade, comprar tudo o que quiser enquanto eu estarei na guerra! Eu vou estar lá, só porque eu fui uma idiota na adolescência, só porque eu achei, que não haveria consequência nenhuma! Então se você puder parar de me bater, eu agradeço porque eu já estou me odiando o suficiente! SOU EU QUE VOU MORRER! – Soltei suas mãos, ela se afastou.

– Eu te amo, Dianna. – Ela me abraçou apertado, Holly caiu no choro em meus braços.

Duas semanas depois.

Os dias passaram voando. Infelizmente não tem nada que eu possa fazer, eu vou para o Iraque. Os amigos já sabem, na faculdade também. Hoje foi o meu ultimo dia de aula na turma de publicidade.

E minha nota naquela prova que eu estava em pânico, antes de ser convocada pelo exército… Eu tirei 9,5. Eu seria uma boa publicitária. Holly também tirou uma nota excelente 9,8. Pelo menos ela poderá ter uma vida tranquila.

Eu tento fingir que não estou em pânico, só para Holly ficar tranquila. Depois de três dias (os três primeiros dias após a notícia), de briga, resolvemos aproveitar e viver intensamente, aproveitar os dias que nos resta.

– Estou pensando em te levar para Disney esse fim de semana. – Disse animada enquanto saíamos do campus da faculdade, preferi não olhar para trás.

– Será ótimo! – Holly disse animada. – Será incrível… Sua nota foi boa. – Ela sorriu animada.

– A sua então, foi maravilhosa! Será a melhor publicitária de Nova York.

– Seremos… Já pesquisei, depois de dois anos você pode voltar e não ir mais! Você vai voltar.

– Levando em consideração que lembra que na nossa primeira vez, nós caímos no chão porque eu não tive forças para suportar seu peso. – Falei sem pensar, Holly ficou triste, precisava reverter a situação. – Foi romântico.

– Foi engraçado e fofo.

– É, foi sim… Crescemos rápido.

– Ainda estamos crescendo amor.

Duas semanas depois.

Meu último dia aqui, amanhã após o almoço um carro do exército vem me buscar, não quero imaginar como vai ser me despedir. Fiz tudo, entreguei a casa de aluguel em que eu morava. Paguei todas minhas contas, cancelei meu plano de celular. Saí da faculdade, e aos poucos fui ficando invisível ao mundo.

De certo modo eu estou conformada com isso… Só rezo para não ficar invisível no mundo de Holly. É como se eu tivesse com câncer terminal ou algo do tipo. Ela sempre fugiu desse assunto mas, consegui conversar com ela, disse tudo o que estava entalado em minha garganta.

Que quero que ela saia… Se divirta, beba, brinque, viva e que sinta… Que ela sinta tudo com intensidade. Inclusive, estou pronta para entender se ela apaixonar por alguém. Se ela não conseguir me esperar.

Até porque não sei se vou voltar… Com vida.

– Amor? Amor?

– Oi

– Estou falando um tempão com você… Tem certeza que não quer ir hoje de novo na boate? A galera queria te dar tchau.

– Vai ficar desapontada comigo se eu disser que não?

– Claro que não, só quero que você curta mais… Sei lá.

– Tudo o que eu quero é comer, ver um filme, dançar aqui… Pretendo não dormir.

– Se depender de mim, não vai.

– Então não vamos. Eu já os vi ontem, espero que eles entendam.

– Entenderão sim… O que quer fazer hoje?

– Estava pensando em jantarmos no nosso restaurante predileto depois do cinema.

– Qual firme quer ver? –  Holly me perguntou animada, ou fingindo estar.

– Deixo você escolher!

– Fechado.

HORAS DEPOIS

– Que noite incrível. Aquela cena do filme…. Aquela que ele cai de bunda no chão foi maravilhosa! – Eu disse toda animada, Holly escolheu uma comedia, melhor escolha ela não poderia ter feito. Foi bom para quebrar o clima de velório que bate quando ficamos em silêncio, a sós.

– Concordo, agora me segue. – Ela foi saindo em direção ao quarto, não entendi a pressa dela, do nada ela fechou a porta. – Será que dá para fazermos amor até ficarmos sem força o suficiente até para respirar? –  Não disse nada, apenas joguei-a na cama. – Te amo.

– Eu te amo mais. – Tirei suas roupas, e as minhas e fui me deitando em cima dela.

– O que foi, amor?

– Quero fotografar cada pedacinho seu na minha mente… Desculpa ficar te olhando tanto assim, mas eu preciso fazer isso.

– Temos tempo, amor. – Ela fez um carinho no meu rosto. – Promete que vai voltar para mim?

– Prometo, Holly. – Capturei sua boca para um beijo lento, senti suas mãos em minha nuca descendo até minha cintura e me puxando mais para perto. – Holly, eu te amo tanto.

– Eu te amo muito, amor… Volta logo para nossa vida. – Sua voz saiu por um fio.

– Quero fazer amor com você, Holly. – Dei um selinho e sentei-a no meu colo. Por algum tempo trocamos carinhos, beijos e gemidos ora ou outra abafados pelo grude de nossas bocas. Ela se levantou e tirou sua roupa, voltando a se sentar no meu colo. Suguei de modo lento o bico de seu seio, deixando-a sua pele bem arrepiada.

– Me toque, amor. – Ela disse em suplica, eu não poderia negar um pedido desses, na verdade eu nunca consigo negar nada a ela. – Delicia, amor… Não pare.

Ela começou a rebolar por cima dos meus dedos, levantei um pouco seu corpo e encaixei meus dedos nela devagar. Fazendo-a sentar e cavalgar enquanto distribuia carinhos pelo seu corpo.

– Estou quase lá, amor… Não pare por favor.

– Não vou parar, eu prometo. – Ela me olhou de um jeito intenso que me fez acender por completo, seus movimentos já não era o bastante. Eu queria senti-la mais e mais e nada no mundo seria o suficiente. Eu sempre iria querer mais. Senti meus dedos se apertarem, seu gozo molhou minha roupa e seu corpo tremia lindamente.

Ficamos em silêncio… Seu corpo imóvel, sua cabeça jogada para trás ainda em transe, senti sua boceta pulsar. Foi ai que eu caí em mim, voltei do meu momento e percebi que provavelmente… 99% de chances de aquela ter sido nossa última vez.

A quem eu queria enganar, sou eu! Eu, não tenho estrutura física e mental para uma guerra, vou ser alvo fácil. Eu sempre lidei bem com a morte, depois que meus pais se foram, eu entendi o quão cruel ela é. Mas jamais tive medo dela. Jamais tive medo de morrer, sempre disse a mim mesma que jamais daria esse gostinho a ela, de sentir medo. Mas isso foi antes de ter Holly na minha vida. Isso antes de ter com quem me preocupar, de ter quem amar. Te der quem levar para passear, cuidar. Antes de amá-la de um jeito tão intenso a ponto de sem hesitar dar minha vida por ela.

Minha vida por ela…

Quando ela me olhou, seus olhos estavam marejados. Pelo visto não era a única a pensar que essa seria nossa última vez. Em um piscar de olhos o clima de sexo passou para um clima de dor, amor. Despedida. Não havia nada que podia ser feito, então apenas abracei-a apertado, senti sua respiração pesada. E suas lagrimas caindo pelo meu ombro.

Eu sempre tive minha vida calma e normal, tudo acontecia como esperava ser. Tudo sempre com um começo, meio e fim. Até o momento que tudo aconteceu, como se o começo fosse o meio e nunca houvesse um final. Holly mudou quem eu fui. E nunca mais quero ser, ter ela é bem mais do que eu podia prever.

Eu só espero ter feito algo bom na vida dela, feito algo bom para ela.

Eu poderia engatar uma fala imensa, eu poderia soltar uma piada. Eu poderia pedir para ela não chorar. Mas hoje eu sei, eu sei o valor de ter um momento para isso. Eu nunca chorei na frente dela. Só longe, ou no banho. E, esse momento de choro era mais do que um momento de liberdade, de fragilidade. É uma forma de extravasar. Eu não posso impedi-la de chorar.

Então, me limitei em uma única frase.

– Obrigada por tudo, amor.

POV HOLLY

O dia amanheceu chuvoso, cinza… Acordei e Dianna não estava ao meu lado, entrei em pânico. Pois sei bem o que o dia de hoje representa. Saí correndo, ela estava parada, sentada no sofá, com as mãos na cabeça. Meus pais estavam lá fazendo o almoço. Me sentei em silêncio perto dela, quando nos olhamos, ela não estava chorando ou com lágrimas nos olhos, era pior. Ela estava com medo. Parecia uma criança assustada.

O almoço foi em completo silêncio, meus pais tentando manter o clima agradável. A campainha tocou, meu pai Frank foi atender, eram eles… Os mesmos soldados que trouxeram a notícia que ela precisaria ir.

– Boa tarde. – Ele disse

– Nem tão boa assim. – Eu disse.

– Nada boa, eu diria. – Dianna retrucou.

– Senhorita Dianna Thompson, viemos lhe buscar.

– Ok, será que podem esperar lá fora, queria me despedir.

– Claro, mas antes preciso lhe entregar isso.

– O que é isso?

– É a sua roupa, você não usará as roupas que usa no dia a dia… Precisa usar essa farda. Aqui tem tudo, bota, calça, blusa, colete e a sua mochila. Tudo no seu tamanho feito sobre medida. E não tente levar nada eletrônico como tablete, celular ou algo parecido. É permitido levar apenas cadernos, livros e fotos se quiser. Enfim, tudo estava explicado no comunicado que recebeu essa semana.

– Entendi. – O sargento encarou nervoso – Entendi, sim senhor. – Ela corrigiu. – Desculpe, entendi, sim senhor.

– Aguardaremos você lá fora. Tem 20 mim.

– Entendido, Senhor.

Os soldados saíram, Dianna não falou nada, não conseguia olhar nos meus olhos. Ela pegou sua mochila e entrou no quarto. E eu desabei em choro, sendo aparada pelos meus pais.

– Calma, filha… Calma, meu bebê.

– Não vou suportar vê-la ir papai.

– Filha, seja forte, ela precisa te ver forte. Ela vai passar por isso, vocês vão passar por isso. Vai dar tudo certo.

Fiquei sendo amparada pelos meus pais, não sei por quanto tempo, mas, quando nos demos conta ela estava parada nos observando, vestida com a farda.

– Holly, vem aqui. – Sai correndo para abraça-la. Sua mão tremendo porem a voz firme. – Não se esqueça de absolutamente nada que eu te disse… Sempre fazemos coisas juntas, não é? – Apenas afirmei com um gesto. – Minha missão agora é defender meu país e a sua é viver. Sair, divertir, estudar muito, trabalhar e viver intensamente tudo! Esta é a sua missão. – Eu não consegui dizer nada, apenas abraça-la bem forte. – Pare de chorar, meu amor… Posso te confessar uma coisa que eu me dei conta ontem?

– Pode

– Eu me dei conta que nunca te pedi em namoro. – Ela deu um sorriso. – Desde a primeira vez que te beijei senti que seria sua para sempre. Não sei como as coisas vão acontecer mas, posso imaginar… Desculpa vir com esse papo estranho mas, eu quero que você me perdoe desde já se eu não conseguir concluir minha missão. – Escutei o choro dos meus pais vendo aquela cena. – Sei que irá me perdoar, mas, saiba que eu nunca lhe perdoarei se, se você não concluir a sua… Viva intensamente e faça tudo, absolutamente tudo que lhe faz feliz.

– Pode deixar, amor.

– Fiquei bem nesse look, sogrões? – Dianna fez um pose de modelo. – Só faltou o capacete, mas lá eles me entregam, acho.

– E essa é a minha Dianna, sempre usando o bom humor para descontrair o ambiente.

– Por Deus, Dianna, você será a soldada mais linda de toda missão. – Meus pais estavam inconsoláveis, chorando alto, desnorteados.

– Sogrões. – Ela deu um abraço forte neles. – Fiquem bem, cuidem da Holly… Sei que já pedi isso um milhão de vezes, e sei que pedir isso é em vão afinal, vocês são os pais dela e cuidaram muito bem… Mas vou pedir de novo.

– Você pode tudo, querida.

– Tenho vocês como se fossem meus pais, de verdade… Eu prometo voltar logo, e iremos ao show da Britney em Las Vegas ou onde ela estiver.

– Está bem, querida.

– Vamos saindo se não aqueles dois vão voltar aqui. – Ela me abraçou forte e saiu caminhando comigo e meus pais do lado. – Até mais, sogros.

– Até, minha querida.

– Amor… – Ela me chamou. Senti um nó na garganta vindo dela. Eu não conseguia andar, falar e nem nada. Eu queria bater naqueles dois eu queria parar aquela guerra, eu queria rasgar a roupa dela e dizer que ela não vai mais pra lugar nenhum, mas eu não posso. – Amor… Não consegue me falar nada? – Apenas neguei com a cabeça, ela veio até mim, me puxou pela cintura e colou nossos lábios em um gesto. O beijo se tornou intenso e desesperado, foi ai que eu tive certeza do tamanho do medo dela, seus lábios tremem. Aproveitei durante o beijo e passei minhas mãos em seu rosto, seu ombro e cabelo na tentativa de gravar a sensação para senti-la mais perto durante o tempo que estivermos separadas.

– Te amo, Di.

– Eu também, Holly.

– Cumpra sua promessa. – Disse baixinho.

– Isso não é um adeus – Ela disse em um sussurro. – Tchau, amor.

Ela se soltou do meu corpo sem olhar para trás, eu não tive nem forças de correr. Ela entrou dentro do carro do governo e não a ví mais.

 

Continua…

Já leu?

Mil Borboletas – Parte I

Mil Borboletas – Parte II

Mil Borboletas – Parte III

Mil Borboletas – Parte IV

 

 

 

 

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