Mil Borboletas – Parte VII

POV HOLLY

“ Amor, como você está? Já estou em território de guerra, eu acho que nunca mais vou conseguir dormir… É tão cruel, estranho e perturbador.

Sinto tanta saudades suas, eu não acredito que estou longe de você… Se passaram Quatro meses, falta vinte meses ainda, eu não sei como vai ser.

Eu só quero minha casa, eu só quero você por perto… Eu só quero nossa vida de volta.

E para piorar, adivinha quem está na minha equipe? FRED, sim o FRED! Ele tem sido um capeta na minha vida, já até levamos bronca juntos. Eu o odeio, é como estar no inferno com o capeta do lado.

Adoro quando você me escreve… Sinto tantas saudades suas, espero que ainda firme nos estudos e me conte mais sobre o novo trabalho.

Eu te amo muito, muito mesmo, fique com Deus e continue torcendo por mim.

OBS.: Sei que esse mês é aniversário de casamento dos teus pais, leve eles para passear, mas não vá ficar segurando vela, ok? Te amo.

Dá um beijão neles!  Te amo, Te amo!
Ass: Dianna


Dois anos e meio depois.

Eu não sei quanto tempo vou suportar isso. Já faz dois e meio que ela foi. A promessa era que ela precisava cumprir dois anos, mas não sei como, Trump foi eleito e com isso novas regras foram estabelecidas e o tempo de permanência mínima, foi  de dois para cinco anos. Eu não sei como ela está, não pude ver foto, é proibido eles enviar foto, motivos de segurança, coisas do governo.
Ontem me peguei lendo as cartas, percebi como é gritante a diferença da escrita dela, do humor dela. No começo brincando, nunca reclamando e sempre camuflando a real situação. Nas ultimas cartas, há tanta dor, leio uma Dianna mais rígida consigo mesma. Com tanta dor. É estranho isso, ela sempre foi tão positiva, agora vejo ela tão no limite de tudo. Eu daria minha vida, trocaria com ela de lugar se pudesse, eu vejo coisas nos jornais, imagens… Meu Deus, deve ser terrível.

Ashley e eu nos tornamos amigas, sempre nos falamos, nos encontramos nos fins de semana ela tem sido meu porto seguro, uma tábua de salvação desde que minha vida virou o Titanic destruído.

Eu continuo amando Dianna da mesma forma que amava quando ela foi.
Só não posso dizer que amo do mesmo jeito, eu a amo muito mais. É algo que me faz pensar, a minha Dianna, aquela com o riso fácil, com piadas e brincadeiras. Eu não a sinto mais, não é ela que escreve aquelas cartas. Em cada carta, eu conheço um pouco da nova Dianna. Uma linguagem formal. Uma dor em suas falas. Mas, mesmo assim. Eu me apaixono pelo ser humano que me escreve todo os meses.

– Ai, me desculpa moça. – A ruiva de olhos negros se desculpou assim que derrubou meus livros no meio do corredor. – Mil desculpas.
– Tudo bem, eu também não estava com a cabeça nem aqui. – Sorri, sendo educada. – Tchau.

– E onde estava? – Ela me respondeu curiosa e eu fiquei muda com a indiscrição de uma estranha. – Desculpe, nem me apresentei, me chamo Jenna. – Ela estendeu a mão.

– Prazer Jenna, me chamo Holly. – Retribuí.

– Nome lindo, igual a pessoa. – Ela disse abrindo um sorriso encantador, mas, acho que ela está me cantando. Melhor cortar.

– Obrigada, vou indo.

– Ei, espera… Eu sou nova aqui no campus, faço cinema. Não conheço nada aqui e a moça não me deu o mapa. Você tem um mapa ai?

– Não, eu conheço bem o campus, sua sala fica do lado da minha, me segue.

– Claro! Você estuda aqui faz tempo?

– Sim, faz.

– Tem muitas festas aqui? Fraternidades e lideres de torcida?

– Bom. Temos festas, mas sem lideres de torcida.

– Sou do Texas e você veio de onde, Holly?

– Vim daqui, nascida e criada… Plenamente nova-iorquina.

– Cara, deve ser maravilhoso ser uma cidadã de Nova York, tudo tão perto, tudo tão grande. Essa cidade é linda.

– Chegou quando? – Perguntei contagiada pela animação da garota.

– Dois dias, mas tô amando isso aqui.

– Seu curso é muito legal… Tem quantos anos?

– Acabo de fazer dezessete e você?

– Você é um bebê, vai crescer muito por aqui. Bom, eu já tenho 21.

– Humm, amo mulheres mais velhas. – Ela disse baixinho.

– Oi? – Fingi não ter entendido.

– Nada não! – Ela desconversou.

Jenna foi me enchendo de perguntas, de onde eu venho, pra onde vou.

– Prontinho Jenna, essa é a sua sala, seja bem vinda, boa aula e até mais. – Sai apressada pois tenho um trabalho para apresentar.

– Espera! –Ela me segurou pelo braço. – Desculpa. – Soltou meu braço. – Me passa seu número de telefone? Talvez podemos sair juntas.

– Obrigada, mas eu não costumo ir as festas do campus, gosto de programas mais tranquilos, lugares que eu abra a porta e não veja ninguém dormindo nú na banheira. – Disse rindo.

– Você é caseira… Legal.

– Sou sim.

– É casada?

– Não.

– Solteira?

– Não.

Namora?

– Sim.

– Humm qual é o nome dele? Dela?

– Dela, se chama Dianna.

– Ela estuda aqui?

– Estudava, ela precisou trancar a faculdade. Ela está a serviço do exercito.

– Sério?

– Sim, ela está em guerra, faz uns dois anos e meio que ela está por la.

– Nossa, esse tempo todo sem se ver?

– Pois é, mas estamos aguentando firme.

– Que bom… Muito bom. – Ela sorriu. – Mesmo assim, me passe seu telefone, podemos sair para tomar um café.

– Tudo bem, anota ai.

Seis meses depois.

– Não acredito! Jenna, eu estava louca com esse livro!

– Eu sei, por isso estou te dando. Gostou, gatinha?

– Eu amei! – Abracei-a apertado.

– Seu abraço é tão bom, Holly.

– Ora ora ora se não é o mais novo casal. – Roger surgiu zoando.

– Quem me dera.

– Pare com isso! Somos amigas pelo amor de Deus, eu tenho namorada.

– Ela está tão longe, baby. – Jenna passou os braços em volta do meu corpo. Eu já estou aqui, pertinho, à sua disposição.

– Para de graça, Jenna! – Caímos na risada. – Oi, Ashley!

– Olá. – Ashley nos olhava atentamente. – Atrapalho?

– Não! Acabei de ganhar aquele livro que eu queria, lembra um que te falei sobre cores e formas. Tem imagens lindas, depois te mostro.

– Claro, vou adorar ver. Oi, Jenna.

– Olá. – Jenna percebeu o tom carregado na voz. – Bom, eu vou indo, depois nos falamos, gatinha. – Ela se aproximou me dando um beijo no rosto. – Vamos Roger. – E saiu.

– Está bem. – Eu disse foleando o livro. – Ela é demais.

– Sim, demais até demais. – Ashley se aproximou.

– Ashley, não seja cruel.

– Qual é? Até as calçadas da rua veem que essa garota está como um abutre em cima de você só esperando o momento de acontecer algo para te levar pra cama.

– Claro que não, ela só tem 18 anos! –  Me joguei na poltrona.

– Está bem, só me responde uma coisa… Aos 18 anos o que você fazia com a Dianna? – Ashley falou me fazendo ficar em silêncio. – Já parou para pensar que ela te deu esse presente no dia 14 de fevereiro? Em pleno Valentine’s Day?

– Você está sendo maldosa, ela sabe da Dianna.

– Tá… Me diz, e a Dianna sabe dessa garota?

– Não, a Dianna não sabe dela. Não tem porque! Ela está em guerra ela está preocupada em se manter viva, não vou lhe causar ciúmes atoa.

– Ora ora, pelo visto você não é tão sonsa assim. Sabe que Dianna ficaria com ciúmes da sua relação de amizade com essa garota.

– Claro que sei… Só não quero preocupa-la. E é tão bom isso, sabe?

– Isso o que, Holly?

– Isso! – Levantei o livro. – Essa coisa de ser presenteada. De ser surpreendida, eu nem me lembro a última vez que senti a sensação de ganhar algo de alguém que não seja dos meus pais.

– Holly…

– Não, não é que eu esteja interessada na Jenna, mas é inegável que ganhar presentes é bom… Ter alguém do seu lado te dizendo que você é linda, que está linda, que meu sorriso é lindo. Isso influencia.

– Influência a que? Holly você já ficou com essa garota?

– O QUE? NÃO! Eu e Jenna não… Ela nunca sequer tentou.

– E se tentar?

– Se tentar não terá sucesso, eu namoro.

– Holly. Cuidado… Dianna não merece uma traição. Na verdade, ninguém merece mas ela… ela não merece, mesmo.

– Não haverá traição, eu e Jenna somos amigas.

– Sei…
 POV JENNA

Holly é tão linda, tão incrível que me custa acreditar que ela ainda diga que está namorando alguém que ela não vê a quase três anos! Pelo amor de Deus, eu estou aqui! E venhamos e convenhamos eu não sou nada de se jogar fora.

– Alô? – Atendi no susto sem olhar quem era no identificador de chamadas.

– Jenna? – Holly com uma voz de choro.

– Holly? O que foi gatinha? Que voz é essa de choro? Alguma notícia do exercito?

– Recebi uma carta da Dianna. Eu não consigo respirar direito.

– Ela tá viva?

– Tá, ela que me escreveu. – Ela disse chorando e eu revirei os olhos, essa Dianna não morre!

– Isso é ótimo! Qual o problema, minha baby?

– Eu não a reconheço nas linhas, eu não consigo pensar, eu tô em pânico.

– Calma, tô pegando o carro. Tô indo ai.

– Vem logo.

– Estou indo, gatinha.

Vesti um moletom, passei em uma conveniência, comprei umas bebidas e comida e fui ao seu apartamento.

– Oi.

– Oi. – Ela me abraçou. – Trouxe chocolate?

– Claro! Trouxe cerveja e comida também. Com comida tudo melhora. – Ela se jogou no sofá, coloquei as coisas na cozinha e voltei e me joguei no sofá também.

– Leia. – Ela me entregou a carta em papel amarelo. Li com atenção. Dianna se mostrava triste, um pouco dura em alguns aspectos mas, na maioria das palavras ela tratava Holly com doçura, dizia estar com saudades. Se eu não tivesse nenhum interesse por Holly até diria que a carta estava tudo ok.

– Uau… É uma carta forte. Intensa.

– Todas as cartas são.

– Que te aflige tanto¿

– Ela… Ela não se parece com a minha Dianna mais… Ela não brinca, ela não tem aquele senso de humor bobo, aquele jeito relaxado. Ela não tem mais aquele jeito, aquele jeito ousado que me fez ser dela. Eu já te contei que ela nunca me pediu em namoro?

– Sério? Nunca me disse.

– Eu sei que é estranho mas… Sei lá, acho que estávamos ocupadas demais nos amando e esquecemos de rotular as coisas.

– Olha, Holly eu sempre achei esse seu relacionamento é perigoso.

– Como assim?

– Você viu uma Dianna ir embora, que nunca mais vai voltar. Você por acaso viu algum documentário sobre ex soldados? São pessoas que voltam transformadas, transtornadas… Não estou dizendo que é bobagem, eles tem seus motivos de voltarem como voltam, eles vêem e fazem coisas que jamais se imaginaram fazendo. No caso dela principalmente que nem queria seguir carreira militar. – Me aproximei mais dela, iniciando um carinho no rosto. – Gatinha, você está namorando alguém que você não conhece mais. Eu tenho certeza que a Dianna é legal! Pelas coisas que você diz ela é incrível! Brincalhona ao extremo tipo eu… De bem com a vida. Mas, e a Dianna de agora? Querida, você tem noção que a Dianna já matou pessoas? Que provavelmente quando voltar, ela será uma pessoa que já matou pessoas?

Percebi naquele instante que Holly tinha levado um choque de realidade, sua pupila dilatou, sua respiração pesou.

– Vamos fazer o seguinte? Tente não pensar nela agora. – Joguei a carta longe. – Vem, vamos para seu quarto, vamos comer chocolate, ver algum filme deitadas… Vamos fazer algo. Hoje é proibido falar em guerra, carta, namoro e em Dianna ok? – Holly me olhava em silêncio enquanto fazia carinho em sua pele. – Holly, está de acordo?

– Estou, Jenna.

– Ótimo, baby… Bem melhor assim.

Holly fez o que me prometeu, esqueceu por um momento que Dianna existia. Vimos algo bobo na TV, brincamos até dançamos. Eu tentei…. Disfarçadamente eu tentei, mas, ela parecia não entender, ou fingia não entender a real intenção de tudo aquilo.

POV HOLLY

–  E foi isso. – Disse com um peso na consciência.

– Isso… Ainda bem que você não colocou a palavra só nessa frase. – Ashley tomou um gole do seu café.

– Como assim?

– Ainda bem que você não me disse, e então adormeci nos braços de Jenna, mas foi SÓ isso. Pelo amor de Deus Holly a que ponto você chegou!

– Eu não fiquei com ela, nós não nos beijamos, Ashley.

– Tá… Imagina você em guerra, e enquanto isso, Dianna aqui, dormindo em outros braços… Ah, mas apenas dormindo.

– Odeio seu sarcasmo.

– Me desculpa, mas se coloca no lugar dela! Holly, olha pra mim… E me responde do fundo do seu coração. Você ama, você ainda ama com todas as forças Dianna?

– Amo.

– Isso me soou sincero, porém desanimado.

– Mas eu juro, eu a amo, eu só não estou sabendo lidar com essa maldita situação, essa distância essa falta de notícias… Essa merda toda!

– Eu te entendo, eu te entendo estamos no mesmo barco amiga, o que você acha hein? Que é a única? Eu também recebo cartas de um Fred totalmente diferente daquele típico cara popular. Eu recebo cartas de um homem que tenta passar calma, mas a maldita dor está em cada letra que ele escreve, está no modo como ele escreve… Está no jeito que a folha chega. Eu me apaixonei por um menino. – Ashley me olhava com os olhos marejados. – E todos os meses eu recebo carta de um homem, um homem que me relata a dor que ele vê e convive todos os dias. Um homem que não liga se o esfaquearem no braço, que controla sua dor e se costura a pele sem problema algum.

– E você ama esse homem?

– Amo ao ponto de dar minha vida por ele, e a cobra da Jenna pode ter razão sim, pode ser que quando Dianna e Fred voltar, que eles voltem mais bravos, mais sérios. Pode ser que eles voltem com traumas, eu não sei você Holly, mas eu… Eu vou pegar meu Fred no colo e ter paciência com ele, e deixar ele chorar o quanto ele quiser. Não vai ser fácil Holly. Mas quando se ama, é isso que se faz. É isso o que deve fazer.

–  Você tem razão.
– Seja sincera com Dianna na próxima carta, não minta e não omita nada. Fale sobre Jenna, fale o que você sente, fala como as coisas estão. Seja transparente com ela. A vida tem sido muito sacana com ela, morte dos pais, ir para guerra. Não seja sacana com ela também.

– Tem razão… Não serei.

 

Continua…

 

Já leu?

Mil Borboletas – Parte I

Mil Borboletas – Parte II

Mil Borboletas – Parte III

Mil Borboletas – Parte IV

Mil Borboletas – Parte V

Mil Borboletas – Parte VI

 

 

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