Mil Borboletas – Parte II

POV HOLLY

Olhei ao redor e não vi Dianna, a turma toda queria agradecê-la. Será que ela já tinha ido embora? Sai da coxia e a vi se despedindo dos meus pais e saindo.

– Filha, parabéns! – Meus pais abriram os braços para mim. – Desviei deles.

– Calma aí papais, eu preciso resolver uma coisa. – Saí correndo atrás de Dianna que já estava entrando em seu carro. – Espera, Dianna! Espera.

– Oi… Aconteceu algo? – Ela saiu do carro preocupada.

– Onde vai?  – Perguntei ainda ofegante.

– Vou para casa, está tudo bem?

– Não, você não se despediu de ninguém!

– Não quis atrapalhar vocês e preferi sair de fininho. – Ela falou em um tom tímido.

– Vai fazer algo agora?

– Não, eu vou para casa. Porque? – Ela perguntou curiosa.

– Não quer ir com a gente no pub?

– Pub?

– É, não vamos encher a cara, mas, vamos comemorar. É o final de um ciclo.

– Não vou incomodar, Holly?

– De jeito nenhum. Vem, vamos voltar para dentro do teatro. – Segurei sua mão. – Você é responsável pela nossa última peça ter acontecido.

– Oi, filha… Oi, de novo Dianna.

– Oi, pais. Desculpa ignorar vocês é que Dianna estava indo embora e nós queríamos agradecê-la por ter feito a peça conosco.

– Tudo bem, nós entendemos. Agora vem aqui, nos dê um abraço, filha. Você estava incrível.

– Obrigada, pais.

– Vamos para casa? Se quiser pode levar todo mundo do teatro para lá.

– Ah pai, a galera estava pensando em ir dessa vez para um Pub.

– Pub?

– É… Prometo não beber.

– Filha, nós não importamos se você vai beber ou não, contanto que a motorista não beba. – Eles olharam para Dianna.

– Eu posso levá-la em casa no final da noite. Prometo a vocês que não vou beber.

– Ótimo, Dianna! Então vamos indo e se divirtam.

A noite correu super bem. Foi bom para conhecer um pouco mais de Dianna. Até que ela é bem legal, teve assunto com todo mundo. Não bebeu, e quando a galera perguntou porque ela não estava bebendo, a resposta era que no fim da noite ela me levaria para casa.

E em nenhum momento me deu uma cantada barata, nem tentou nada quando estacionou o carro na porta do meu prédio.

– Você está bem, Holly?

– Eu só bebi três cervejas, eu estou bem. – Sorri, acho que foi a primeira vez que me permiti sorrir para Dianna.

– Ótimo, não quero que seus pais achem que você ficou bêbada por minha causa.

– Já cheguei bêbada em casa algumas vezes. Não sou tão careta quanto você pensa. – Disse rindo, lembrando que quebrei dois vasos gigantes que meus pais tinham o maior ciúme.

– Ok, estou surpresa Holly. – Ela me acompanhou na risada.

– Como posso te agradecer pelo que fez?

– Já me agradeceu. Me diverti muito na peça e no pub também, fazia tempo que não ria tanto, definitivamente Caleb não é um bom cantor.

– Hum… Olha, o convite para o baile, ele ainda está de pé? – Eu disse séria. Dianna me olhou com surpresa.

– Você quer ir no baile comigo, Holly? – Ela parecia não acreditar. – Olha, não precisa ir só para me agradecer por hoje, sério, não precisa agradecer.

– Mas eu quero.

– Ham? Sério? – Ela estava sem acreditar.

– Sério, eu menti para você. Quando disse que não te acho bonita, eu te acho bonita sim. E você se mostrou alguém legal. A galera do teatro não sabe, mas, eu sei que Fred e sua turma queriam estragar as coisas e foi você que os dedurou. Acho que é por isso que eles não te deixam mais andar com eles, não é? Fora que, o que você fez naquele palco não foi fácil. Seria um prazer ir com você.

– Você não está bêbada e amanhã vai dizer que não lembra de nada disso, não é?

– Não, eu não estou bêbada. Amanhã, que na verdade já é hoje, afinal são quase quatro da manhã, eu ainda terei a mesma opinião.

– Tem certeza? – Ela pegou em minhas mãos e eu fiquei sem jeito, ela percebeu e tirou as mãos de mim. – Desculpe.

– Tudo bem, agora preciso ir.

– Holly. – Ela me chamou saindo do carro. – Eu te mandei uma solicitação de amizade no Facebook faz uns dois anos ou três, se não tiver excluído ainda, me aceita.

– Não exclui. – Sorri. – Vou te adicionar.

– Ok… Boa noite, Holly.

– Boa noite, Dianna.

Fui direto para meu quarto e quando eu olhei pela janela o carro dela ainda estava lá, no mesmo lugar. Tão linda. Entrei no meu Facebook, fui em solicitações e lá estava ela, realmente fazia uns três anos que ela pediu minha amizade. E finalmente eu adicionei.

– Bom dia, princesa! – Meu pai disse todo animado.

– Bom dia, papais.

– Como foi ontem? Chegou tarde?

– Era quase quatro da manhã… Mas não cheguei bêbada.

– Ótimo, era isso que me preocupava. – Meu pai Marcel disse.  – Vocês viram a vitória que tivemos para a comunidade LGBT hoje?

– Não ví nada, pai, mal peguei no celular.

– O governo diz que agora aceita soldados homossexuais, que eles terão diretos, respeito e deveres como quaisquer um. E que aceita seus cônjuges da mesma forma e com a mesma honra.

– Ah, isso é ótimo! Tem muita gente que fica entre a paixão pelo trabalho e a paixão pelo o que é. Agora não será preciso escolher.

– Sim, são poucos passos que fazem uma grande caminhada. Agora me diga, filha… Dianna, você odiava aquela garota, pelo menos é o que vivia nos dizendo, mas, não foi o que vi ontem.

– Eu detestava a Dianna, mas ela mudou… No meio do ano ela me chamou para ir ao baile de formatura com ela, claro que não aceitei porque ela ainda era uma ogra. Mas com o tempo ela vem mudando se mostrando legal, depois disso ela me chamou várias vezes, mas mantive minha opinião… Mas isso mudou ontem.

– Ontem ela te chamou para o baile?

– Mais ou menos, eu perguntei se o convite ainda estava de pé, ela disse que sim, eu aceitei… Ela tem se mostrado legal.

– Ai, meu Deus. Amor que emoção, nossa filhinha vai ao baile! – Meu pai Frank começou a bater palmas.

– Precisamos arrumar um look lindo!

– Calma vocês dois! Eu até aceito a ajuda de vocês porque não faço ideia do que vestir, agora… Eu preciso estar contente com o look, ok?

– Tudo bem, Holly… Tudo bem, agora venha e coma o seu café da manhã, mocinha.

– Hoje você tem aula de dança e depois estávamos pensando em te pegar para irmos ao cinema.

– Ótima ideia, super topo.

POV DIANNA

Fiquei o fim de semana inteiro em casa. Holly me adicionou. Conversamos um pouco, os amigos dela do teatro me adicionaram também.

Segunda é dia de voltar ao colégio, e assim que entrei, ví fotos minhas da peça pregadas em todos as paredes de todos os corredores. Eu sei bem quem foi o responsável por isso, o Fred.

Todos me zoam mas eu não ligo, uns estão me zoando porque são babacas, outros porque eu tirei muito sarro deles. Então estão dando o troco. Ok.

– Oi. – Holly surgiu assim que virei no corredor.

– Oi, Holly. – Abri um sorriso afinal, ela estava linda.

– Já viu os cartazes? Eu pensei em te esperar na chegada para te preparar, mas não deu tempo.

– Tudo bem, sem problemas.

– Não está magoada? – Ela me perguntou, porém nem deu tempo de responder.

– E ai perdedoras! Quem te viu quem te vê, Dianna… Fazendo pecinha teatral. Porque não me avisou, querida? Queria ter ido para rir de você também.

– Você é um babaca, Fred. Me deixa em paz.

– Ah, eu não queria atrapalhar o momento romântico entre vocês duas. Ah, já me esqueci, nem ela quer ir no baile com você, não é mesmo? Me responde uma coisa, Dianna, quantas garotas você comeu desde que parou de andar comigo?

– Cala sua boca, Fred.

– Pra você ver, você só tinha fama. Só tinha garotas quando era uma de nós. O nosso grupo! Resolveu ser traíra. Se fudeu.

– Mais alguma coisa?

– Sim. Temos algumas semanas ainda. E se você me conhece bem, seja firme, pois vou fazer da sua vida um inferno.

– Faça o seu melhor.

– Você não tem noção com quem está lidando.

– Pior que eu tenho sim, você é que não tem.

– Que comece a guerra.

– Só te avisar, eu não vou te atacar. Eu não vou entrar no seu joguinho e nem participar da sua guerra. Eu só quero paz e distância de vocês.

– Ridícula. – Fred nos olhava com desdém. – Bom dia, perdedoras. – E saiu.

– Você está bem? – Holly me perguntou com certa preocupação na sua fala. – Tá chateada, não é?

– Não pelos cartazes, mas, por saber que quem fez era o meu melhor amigo, o cara que eu me apoiei quando meus pais morreram. Mas se ele quer jogar dessa forma, ok, jogará sozinho.

– Sinto muito. – Holly estava visivelmente preocupada comigo.

– Tudo bem… Você ainda vai comigo ao baile?

– Vou sim.

– Então está tudo ótimo!

Andamos pelos corredores conversando. As pessoas nos olham com espanto, posso imaginar o motivo, da classe A para classe D… Mas eu nunca estive tão bem.

A semana correu até muito bem, tirando a correria para o baile, onde tive que fazer minha parte toda sozinha, pois sou filha única e meus pais eram filhos únicos também… Resumindo, sozinha no mundo.

Todos os dias nos intervalos Holly e eu conversamos. Ás vezes sozinhas, outras vezes com amigos dela que de certa forma se tornaram os meus. Em outros tempo, parando bem para pensar, eu já teria roubado um beijo dela ou coisa do tipo. Mas, ela é diferente. Pode ser um exemplo ruim esse que estou prestes a dar, mas é como um brinquedo que você demora a ter e quando tem, tem até medo de brincar.

Holly é mais ou menos isso, eu passei a vida inteira admirando-a  de longe. Sanando minhas vontades com outras garotas. E agora que eu tenho a chance de me aproximar, eu não quero estragar tudo em um impulso. Não vou fingir ser quem não sou. Vou deixar as coisas fluírem. É o melhor a se fazer.

Finalmente pronta, vestido azul Tiffany, brinco de pérolas e cabelos presos em um simples penteado (nada muito elaborado, afinal fui eu que fiz vendo um tutorial no Youtube). Fui até a casa dela para buscá-la. Assim que entrei os pais dela me teceram elogios. Ela surgiu de um cômodo que imagino ser seu quarto, eu não caibo em mim de tanta felicidade, seus cabelos soltos com leves cachos nas pontas, um vestido roxo e maquiagem leve… Linda.

Tiramos algumas fotos, os pais dela nos encheram de abraços e beijos e nos liberaram. Pediram para nos divertirmos muito e deram passe livre para a filha, sem hora para voltar.

Eu não vou mentir, eu estou em pânico. É a garota que eu sempre quis ir ao baile dentro do meu carro… Indo para o baile comigo.

Assim que entramos no salão, todos pareciam nos olhar. Ficamos paradas na porta olhando a movimentação, que era quase nenhuma ali.

– Será que a galera já chegou?

– Caleb disse que seria um dos primeiros para reservar uma boa mesa para nós. – Holly disse com o olhar atento na multidão.
– Você está linda. – Eu disse com a cara mais boba possível provavelmente.

– Você também está.

Fiquei observando a multidão para achar Caleb e quando finalmente achei, coloquei meu plano em prática. Funciona como um termômetro, eu encontraria a nossa mesa e sairia puxando ela pela mão, se ela soltasse a mão, ponto negativo se ela deixasse a mão, ponto positivo. Poderia me sentir à vontade para andar com ela assim a noite toda.

– Encontrei o Caleb. Vem Holly! – Peguei na sua mão surpreendendo-a e para minha alegria ela não soltou, pelo contrário, senti sua mão procurando mais contato com a minha.

Horas se passaram. O clima estava animado, todo mundo se divertindo, tirando fotos brincando e dançando. O rei e a rainha do baile são Fred e Ashley, ela não está se cabendo em sí. Eu fui uma das que votei nos dois, são um casal bonito.

– Ai, meu Deus está tocando Fifth Harmony! Dianna levanta preciso dançar essa música.

– Sim, senhora! Adoro Miss move on! – Todos da mesa foram para pista de dança. Caleb está se dedicando e mostrando os seus melhores passos, que não são nada bons, pelo menos para ele, na visão dele, ele está arrasando sendo o rei da pista de dança. Para nós, é muito engraçado.

– Você se encaixou bem no nosso grupo. – Holly disse sem parar de dançar.

– Pois é, pena ser nas últimas semanas de aula.

– Tudo bem, a turma do teatro continuará mantendo contato, existe vida pós colegial.

– Tem razão. – Saiu Fifth Harmony o DJ colocou uma música lenta, segurei em sua cintura e ficamos dançando abraçadas, sem dizer uma palavra.  Acho que não precisava dizer muita coisa. – Assim que a música acabar, você se importaria de ir comigo até o jardim nos fundos, Holly?

– Ok.

Caminhamos de mãos dadas até os fundos. Achei um lugar perto, porém sem ninguém.

– Prometo que serei rápida. – Tirei uma caixinha de minhas mãos e entreguei-a.

– O que isso? – Holly perguntou.

– É pra você, um presente de formatura adiantado. Eu vi e achei que você iria gostar, espero estar certa.

– Dianna, eu não comprei nada para você.

– Tudo bem, apenas abra. – Ela me olhou, sorriu e abriu.

– Meu Deus, que lindo! – Ela pegou o colar e levantou para melhor admira-lo, comprei um colar com um pingente de borboleta.

– Gosta?

– Sim, adoro borboletas! – Ela ficou pensativa por alguns segundos, parecia analisar o que tinha me dito. – Reformulando a frase, eu acho legal borboletas. Não sou nenhuma maníaca por borboletas, tipo Mariah Carey.

– Entendi. Mas olha, se quiser trocar por algo é só ir até a loja.

– Não! Não, eu realmente gostei! Pode me ajudar a colocar?

– Claro. – Peguei o colar da sua mão, destravei o fecho e ela se virou para que eu pudesse colocar o colar.

– Porque borboleta?

– Porque me remete a uma frase que escutei em uma música do Friendly Fires, chama kiss of life. Já faz uns três anos que ouvi, é de um vinil meu e na hora me lembrei de você. Desde então toda vez que vejo uma borboleta, lembro de você. – Terminei de fechar o colar em seu pescoço. E ela se virou. – Ficou muito bom em você.

– Obrigada. Que trecho é esse?

– Tem certeza que quer saber aqui e agora?

– Tenho.

Mil borboletas dos teus lábios para os meus. – Ela ficou paralisada, fui andando em sua direção até ela se chocar com o tronco da arvore. Fui me aproximando com cautela e ela não se esquivou, olhou nos meus olhos, depois para minha boca e voltou a me encarar. Era o que eu precisava para ter um sinal de que ela também quer. Então beijei-a, bem de leve, ganhando ritmo aos poucos, segurei em sua cintura e suas mãos vieram até meu rosto para colar mais nossas bocas. Finalizamos com um selinho demorado.

– É melhor voltarmos. – Ela disse baixinho.

– Tudo bem, como você quiser. – Saí em direção ao baile segurando sua mão.

– Dianna. – Ela parou de andar. – O beijo, eu gostei muito. – Ela estava vermelha de vergonha.

– Eu também… Posso te contar um segredo? – Me aproximei.

– Pode.

– Pretendo te beijar muito ainda hoje. – Ela começou a rir, aproveitei e roubei um outro beijo. – Agora vamos.

Continua…

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Mil Borboletas – Parte I

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