Mil Borboletas – Parte IV

POV HOLLY

Acordei, olhei para os lados e Dianna não estava lá. Eu surtei… Me vesti correndo, não sei que horas ela acordou. E se isso tudo tiver sido um sonho? E se ela me enganou esse tempo todo e agora espalhou tudo por whatsaap?

Fui no guarda roupa dela, peguei uma calça jeans e uma blusa emprestada e vesti. Desci as escadas correndo e me deparei com ela na sala jogando vídeo game.

– Bom dia, flor do dia! – Ela me deu um belo sorriso, porém eu não retribui, só queria tirar satisfação com ela. – O que foi? Está tudo bem?

– Me diz você. – Eu disse nervosa.

– Bom, a noite de ontem foi incrível. Por mim está tudo ótimo, e para você?

– Não, não está tudo ótimo… Eu dei para você no primeiro encontro! Eu nunca fiz isso! Eu nunca fui tão fácil. – Comecei a andar de um lado pro outro em pânico.


– Ei ei ei, calma. – Ela tentou se aproximar, mas eu não deixei. – E o que tem de errado nisso tudo? Você foi intensa, foi verdadeira com o que sentia… Foi lindo, foi um desejo de ambas as partes, Holly.

– E se isso tudo for encenação sua? – Gritei.

– Ham?

– E se você combinou com a sua turma de fingir estar rompida com eles, me seduziu, me levou para o baile e me levou para cama… E agora que tem tudo isso, vai sair falando no colégio inteira que eu dei para você.

– Eu não sou um personagem cruel de filmes, Holly. – Senti que ela estava magoada. – Eu tenho um coração aqui dentro. – Isso me fez sentir mal. – Quer saber? Quer saber, Holly ? – Ela começou a gritar. – Pega seu celular – Fiquei paralisada. – Pega o seu celular, Holly! –  Fiz o que ela me pediu. – Vai em vídeo. – Ela estava séria. – Me filma. – Fiquei parada. – Vamos Holly, me filma! – Assim fiz. – Eu, Dianna assumo que sou completamente apaixonada pela Holly, e que dei a noite toda para ela… Pode desligar, Holly. – Desliguei e fiquei olhando pasma para ela.

– Está aí, se caso vazar que nós duas transamos você pode enviar isso para o mundo se você quiser. Eu não jogaria tão baixo, pode ser estranho mas eu não sou tão suja. Eu realmente gosto de você. – Ela se jogou no sofá ficando de cabeça baixa.

– Desculpa, Dianna. – Eu disse baixinho tamanha minha vergonha. – Eu dei uma surtada, me desculpa. Eu vou apagar o vídeo.

– Só apague quando tiver realmente convencida que eu não sou um monstro. – Ela não me olhava nos olhos, mas pude sentir sua voz embargada.

– Me desculpe. – Me aproximei. – Eu estraguei tudo. Me perdoe.

– Admito que não esperava que seria essa reação quando você acordasse, até preparei café para nós.

– Me desculpe… É que é difícil as vezes acreditar em você.

– Se está tentando melhorar, Holly, assim não está conseguindo.

– Desculpa desculpa… Olha, esquece tudo que te disse, deixa tentar mudar toda a merda que fiz.

– Como?

– Para começar, acho que podia te dar um beijo de bom dia. – Me sentei no colo dela, passei meus braços pelo seu pescoço e beijei-a. – Bom dia, Dianna.

– Começou bem. – Ela deu um sorriso lindo. – Bom dia, Holly.

– Quero te conhecer melhor, Dianna… Eu quero realmente saber quem você é, qual sua história. Sem segredos e sem medos.

– Para começar, que tal me chamar de Di.

– Di?

– É, meu nome é muito grande perto do seu, pode me chamar de Di.

– Ok, Di.

– Será que podemos tomar um café na mesa? Estou com fome e você também. – Saí do colo dela. – Vem, vamos comer. – Seus pais ligaram.

– MEUS PAIS? – Fiquei em pânico.

– Sim – Ela continuou andando sem olhar para mim.

– Como?

– Eu dei para eles os meus contatos enquanto esperava você ficar pronta para o baile.

– Olha, me perdoa se eles foram um pouco rudes com você. – Abracei-a apertado.

– Calma, seus pais são uns amores. Só queriam saber se você estava bem. – Ela deu um beijo em minha testa. – Eu disse que sim, mas não entrei em detalhes. Só prometi te levar para casa até a hora do almoço de vocês, que eles me disseram que é as 12:30. Está tudo bem acredite. – Ela me deu um sorriso que me deu tanta paz.

Peguei meu celular que estava no bolso de trás da calça, destravei e comecei a mexer, fui rápida e travei o celular.

 – O que fez? Posso saber? Se não for invasão de privacidade. – Ela estava vermelha.

– Tudo bem, pode saber, é sobre você.

– O que é?

– Apaguei o vídeo… Eu não preciso ter provas sobre você, sobre nós. Tudo o que eu preciso está aqui, nesse momento com você me abraçando assim.

– Nossa, Holly. Achei que eu era a romântica da relação.

– Temos uma relação? – Falei em tom de brincadeira, mas ela ficou vermelha de vergonha.

– Vamos comer? – Ela desconversou. – Gosta de geleia?

– Gosto sim.

O café correu bem, rimos muito das fotos tiradas na noite passada, postei algumas com os amigos e com ela. Ajudei-a na cozinha e quando nos demos conta, já estava na minha hora. Ela me levou até em casa, me deixando na porta. Trocamos alguns beijos e então entrei em casa.

– Olha, nossa princesa chegou! – Meu pai Frank me abraçou apertado.

– Oi, papai.

– Ai meu Deus. Nossa, que saudades de você! – Meu pai Marcel surgiu me roubando dos braços do meu outro pai.

– Calma papai, não tem nem um dia que nos vemos… Vocês sobreviveram sem mim?

– Oh e como, relembramos os velhos tempos. – Meu pai Marcel olhou para meu pai Frank que ficou vermelho, obviamente, eu não era a única a ter transado naquela noite.

– Pelo amor de Deus, me poupem dos detalhes. – Falei em tom de brincadeira, a mesa estava posta e eu já estava com fome.

– E você também nos poupe, Holly, sou ciumento. – Meu pai Marcel falou.

– Ai que isso, Conrad! –  Meu pai Frank o repreendeu.

– Ah meu amor, ela já é uma mulher feita e ela mesma nos contou da primeira vez dela.

– Papai, eu e a Dianna, não rolou nada! – Tentei mentir.

– Está bem Holly, e eu nasci ontem? Filha, sempre fomos muito abertos aqui nessa casa, aqui é um lugar seguro lembra? E olha, vou lhe dar uma noticia. Boa ou não, você que vai poder dizer, mas, nós, seus pais, já tivemos a sua idade e nós não nascemos ontem. – Ele fez um carinho em minha mão, vendo que eu estava completamente envergonhada.

– É, isso eu concordo com seu pai. O jeito que a Dianna te olha, é diferente Holly. Percebemos isso no dia da sua peça de teatro. Mas parecia uma coisa mais…unilateral. Ontem quando você se encontrou com ela ali na sala, seu coração parecia sair pela boca, e a química estava formada. Aí você vai, some, dorme fora, aparece com essas roupas, que está na cara que são dela, com um sorriso enorme no rosto e que, mesmo você tentando fechar a cara, não está conseguindo!

– Ok, admito… Satisfeitos?

– Tá desculpa a indiscrição… E vocês estão namorando?

– Não.

– Questão de tempo. – Meu pai disse.

– É, também concordo com seu pai… Me conte como foi o baile! Mas antes, pera ai… Esse colar de borboleta, isso não é seu.

– Agora é, foi ela que me deu no baile.

– É um lindo colar.

– Eu também achei papai… Mas enfim, sobre o baile, vou contar tudo para vocês.

POV DIANNA

Eu não posso acreditar, Holly e eu dormimos juntas. Tomamos café da manhã e agora, agora… Eu não sei. Mais uma vez desde que Fred me excluiu da turma, eu fico sozinha. Mas vale a pena. Se eu não tivesse me afastado do bando, eu e Holly não teríamos ido ao baile juntas, dormido juntas e tomado café juntas.

Passei meu sábado em casa, ouvindo Closer, do The Chainsmokers, lembrando dela. Acabo de acordar no domingo e para minha surpresa, recebo uma mensagem dela.

“Oi, bom dia. Não sei se está acordada… Mas enfim, bom dia.”

Resolvi começar uma conversa.

Eu: Oi. Bom dia, princesa. Acabei de acordar, por isso não respondi antes. Está na cama ainda?

Holly: Tudo bem, estou no carro indo para casa.

Eu: Nossa, o que estava fazendo?

Holly: Eu faço aula de dança todo domingo de manhã. Danço desde pequena, meus pais fizeram questão no começo, mas hoje até gosto.

Eu: Você sempre me surpreendendo, percebi que você dança bem, mas não sabia das aulas.

Holly: Hahaha pois é, eu tenho os meus truques.

Eu: Quero conhecer seus truques.

Holly: Estou indo para a casa, você quer almoçar comigo e com meus pais?

Eu: Eles não se importariam?

Holly: Não, inclusive eles que deram a ideia.

Eu: Ah, mas são eles que querem minha companhia, não você.

Holly: Eu também! Vem, por favor!

Eu: Posso ir daqui a trinta minutos?

Holly: Sim, seria ótimo.

Eu: Levarei sorvete, qual sabor você quer?

Holly: Gosto de tudo um pouco, mas, prefiro que você escolha. Quero ver se acerta.

Eu: Ok, daqui a pouco eu chego ai. Beijos.

Holly: Beijos.

POV HOLLY

Eu fiquei mais nervosa do que o normal. Dianna almoçando comigo e meus pais em pleno domingo, isso soa tão formal. As coisas parecem estar indo tão depressa, imaginar o pouco tempo e tudo o que já aconteceu. É lindo, lindo que me dá medo.

Meus pais estão animados, os trinta minutos passaram rápido e a campainha tocou. Fui atender e lá estava ela sorrindo, de jaqueta jeans verde musgo, calça rasgada e cabelos soltos.

– Oi, Holly. – Ela me abraçou de um jeito tímido. – Tudo bem, dançarina?

– Tudo bem colecionadora de vinil. Entre e fique à vontade.

– Obrigada, trouxe sorvete de flocos, é o meu predileto.

– Eu gosto muito de flocos, pontos para você.

– Ótimo, quantos pontos eu tenho? – Ela falou se aproximando me encarando com aqueles olhos azuis que me fazem perder o ar… Eu não consigo me mover quando ela me olha assim.

– Vários minha, querida – Meu pai Frank apareceu, arrumando a mesa de jantar. – Acredite, você tem muitos pontos com a minha filha e comigo também. – Ele disse percebendo que eu estou visivelmente envergonhada. – Desculpe atrapalhar vocês duas.

– Sem problemas. Tudo bem com o senhor? – Ela foi até meu pai abraçando-a.

– Senhor está no céu!

– Opa, trouxe sorvete! – Ele pegou a sacola da mão dela. – Oba, sorvete de flocos, adoramos sorvete de flocos.

– É o meu preferido também… Posso ajudar vocês na cozinhar?

– De jeito nenhum, daqui meia hora está tudo ok. Filha, leve ela para conhecer o resto da casa.

– Ok, vamos . – Segurei sua mão e levei até meu quarto. – É aqui que eu durmo.

– Belo quarto, imaginava que seu quarto seria rosa.

– Porque?

– Porque sim, sei lá… Mais menininha.

– Gosto de azul, minha cor predileta é azul.

– Gosta de mais o que, Holly?

– De Beatles… De Fifth Harmony, Madonna, Cher… Gosto de Ariana Grande e de Ed Sheeran…  – Fui me aproximando. – Gosto de você.

– Eu gosto de você, gosto muito. – Ela me abraçou forte. – Você pode ser beijada no seu quarto?

– Não sei, nunca fui beijada dentro de casa. – Falei colando meu corpo

– Podemos mudar isso agora. – Ela se aproximou e me beijou com calma, colocando suas mãos em volta da minha cintura.

– Meninas, o almoço está na mesa.

– Estamos indo! – Falamos juntas, limpei sua boca.

– Vamos comer. Já aviso, meus pais gostam da comida meio sem sal… Então se precisar, pode pedir o saleiro.

– Está bem, obrigada por me avisar.

O dia foi agradável, conversamos muito. Meus pais contaram como se conheceram, na verdade contaram tudo! Tudo mesmo.

A semana passou voando, última semana na escola, fim de semana com a formatura. Todos os dias depois da aula sempre fazemos algo diferente. Nos conhecemos mais, foi muito bom… Um dia sou eu que apresento algo novo meu para ela, um lugar que eu goste muito de ir, um livro ou coisas do tipo, no outro dia é ela que me surpreende com algo. Quando dei por mim, estava apaixonada.

Me dei conta que na formatura ela seria a única da turma que não teria ninguém aplaudindo, levantando algum cartaz desejando parabéns. Então, resolvi fazer isso com meus pais e pedi para que na horas eles fizessem o mesmo por ela. E eles fizeram, ela ficou surpresa e visivelmente emocionada, ela me olhou  e disse um obrigada bem baixinho.

Três meses depois.

A vida se resume a faculdade, e comprar coisas para minha casa.

Nesses três meses muita coisa aconteceu. Algum milagre aconteceu na cabeça dos meus pais, eles compraram um apartamento para mim. E desde o final do ano estou morando sozinha. Dianna vem me ajudando a organizar a casa… E dorme comigo a maioria das noites.

Ela nunca me pediu em namoro, mas agimos como se fossemos namoradas, andamos de mãos dadas, inclusive na faculdade até por fazermos o mesmo curso. Ela me trata bem, cuida de mim e de nós. Somos um casal, quando nos perguntam, é o que dizemos.

Não vou mentir, às vezes eu fico tentada em dizer para ela vir morar comigo, já passamos tanto tempo juntas. Ela mesma está procurando um apartamento, ela não quer morar mais naquela casa, ela disse que não se sente bem. Mas acho que preciso desse tempo sozinha, sempre fui muito individualista, minhas coisas, meus pais, minha vida, minha namorada ( é isso que Dianna é para mim).

Bom, vou deixar o tempo me mostrar o que fazer.

Continua…

Já leu?

Mil Borboletas – Parte I

Mil Borboletas – Parte II

Mil Borboletas – Parte III

 

 

assinatura-paula-okamura-fw

Celine Ramos
Baiana, feminista, negra e publicitária. Fundadora do SouBetina. Vivo na ponte-aérea Salvador-São Paulo. <3