Mil Borboletas – Parte I

POV HOLLY

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O despertador toca às seis da manhã e eu já quero morrer. Meu Deus quando isso vai acabar? Ok, eu sei quando isso vai acabar, falta um ano para finalmente a palavra colegial sair da minha vida. E com elas, alguns ogros e ogras que, meu Deus, me surpreende eles terem chegado ao terceiro. São completamente burros e boçais.

Tomei meu banho, tive a típica conversa matinal com meus pais e fui para o colégio. As coisas são muito intensas na minha família, principalmente comigo. Sou filha única de dois pais completamente babões. Quando eu digo dois pais eu não falo de pai e mãe iguais à palavra pais. Eu falo de pais mesmo, dois homens. Sou filha de um casal gay.

Sou filha biológica de um, mas nem eu e nem eles sabemos. Alguns dizem que eu pareço mais com o pai Frank, outros com o pai Marcel. Independentemente de qualquer coisa, são meus pais e os amo muito.

Tive uma criação ótima, desde pequena já sabia a maioria de musicais da Brodway e sempre que podia eles me levavam em alguma peça de teatro, cresci rodeada de cultura e divas do pop como Madonna e Cher. Isso foi um pouco estranho, afinal, quando minhas amigas ainda escutavam a pequena sereia, eu já sabia de cor todas as músicas do CD BedTimes Stories da Madonna e Love Hurts da Cher.

Moro em Nova York, então é meio que engraçado ver pessoas do mundo inteiro vindo conhecer coisas que eu tenho acesso sempre. Era o que eu achava quando tinha 10 anos. Agora com 16, só acho que morar em Nova York é um desastre! Aqui tem tudo, literalmente tudo, inclusive as melhores faculdades, entre elas o curso que desejo, quero fazer publicidade. Sendo assim, eu não me mudarei de cidade, não conhecerei pessoas novas e nem poderei dizer que sinto saudades dos meus pais.

“Afinal, para que sair de casa se a sua casa é na mesma cidade da sua universidade? ’’

Essa pergunta é a que meus pais fazem todo santo dia. Meu Deus, eu preciso de espaço, privacidade! E se eu quiser trazer um garoto ou garota para dormir em casa no auge da minha fase na faculdade? Eu terei que entrar pé por pé para meus pais não ouvirem? Pelo amor de Deus!

Cheguei ao inferno, digo, colégio.

Não é coisa de filme americano, é verdade, todo colégio tem suas turmas, os atletas, as líderes de torcida, os gênios… Esses estão no topo da pirâmide. Tem os roqueiros, os hipster, os de matemática. Esses estão no meio da pirâmide. Tem os de humanas, que estão na base. E tem os que fazem teatro, cuidam do jornal da escola, os que comem no banheiro para não serem apanhados e apanharem dos valentões. Esses estão no subsolo dessa pirâmide.

E é bem no subsolo que eu me encaixo, como dizem meus pais, dos males o menor. Eu não apanho de ninguém, mas faço teatro e sou redatora do jornal da escola. Já é o bastante para ser zoada eternamente, pela base (como se eles tivessem moral para isso), meio e o topo dessa maldita pirâmide.

– E aí, Holly, sua mãe ganhou o que nesse domingo? Ah me esqueci! Você não tem mãe! – Paul saiu com a turma dele me zoando.

Ele é o capitão do time de Hockey, ele namora Brittany que é líder de torcida. Dois completos idiotas que só falam merda. Não tiram notas boas, foram pegos várias vezes transando no banheiro e no refeitório do colégio e nunca foram expulsos, sabe o porque? Porque eles são importantes para o funcionamento do colégio. Os jovens precisam ter modelos para se espelharem. E Paul e Brittany tem tudo para isso, são lindos, corpos esculturais e muito influentes aqui.

É, eu sei, é besteira, mas foi o que o treinador dele e a treinadora dela falaram para defendê-los e não perdê-los, afinal é ano de campeonato estadual.

Eu não vou ficar aqui falando de um por um. Mas digamos que aqui tem os roqueiros darks. Tem as patricinhas. As que adoram jogar na minha cara que eu não ando na moda e nem tenho roupas da grife da Beyoncé. É um saco.

– Muito bem alunos, hoje a aula vai ser sobre cidadania. – Meu professor falou empolgado. – Hoje teremos uma aula especial com participação especial, por favor entrem. – Dois soldados bem vestidos entraram sorrindo na sala. – Fiquem à vontade.
– Obrigado.

– Obrigado.

– OLÁ, MENINOS E MENINAS. BOM DIA. – O cara fala gritando, qual é? Quem grita ás oito da manhã? – Me chamo Michel. Sou oficial do exército e estou aqui junto com o meu parceiro Felipe para falarmos sobre a paixão pela pátria.

– Exatamente, o professor de vocês está entregando uma ficha, que eu peço que todos assinem, até aqueles que não querem servir a pátria, é só para termos um controle para quantas pessoas falamos. Caso você queira ser um de nós, é só preencher que sim e em qual área você gostaria de atuar.

– Senhor? – Frederick, levantou a mão. – Neste caso, se eu preencher já significa que eu estou alistado?

– Boa pergunta, meu rapaz. Não, isso não significa que ano que vem você será um de nós, mas, se caso acontecer uma guerra, essas fichas valerão, vocês serão encontrados e convocados para imediatamente servir e defender nossa bandeira.

– Legal – O Frederick respondeu.

– Mais alguma pergunta? – O soldado passou o olhar atento pela sala. – Ok, eu vou esperar aqui por cinco minutos juntos com o meu parceiro, e depois sairemos recolhendo as fichas. Atenção, lembre-se, meninos e meninas podem ser um de nós. Se você é mulher e tem essa vontade, é só preencher corretamente.

Obviamente que eu apenas assinei e coloquei a opção não.
Eu não quero morrer e nem matar os outros por uma bandeira.

– Vou colocar sim. Quero ir para guerra atirar na cabeça dos outros. – Frederick disse rindo conversando com sua turma.

– Não seja cruel, que horror Frederick. – A Ashley namorada dele deu um tapa em seu ombro.
– Eu também vou zoar, eu não quero ir, mas vou colocar sim!  – Dianna se manifestou.

– Tá louca, eles podem te chamar, Dianna! – Ashley disse.

– E daí? Eu não vou, eu sou lésbica assumida, todos sabem da minha sexualidade, eu não vou ser escolhida.

– É, isso é verdade, é proibido gays lá.

– Pronto, tá feito. – Dianna disse rindo com a sua turma, até que ela percebeu que eu estava observando-a. Ela me sorriu e eu quebrei o contato dos nossos olhos.

Ela é desprezível, odeio essa garota. Estudamos juntas desde que me entendo por gente. Dianna parecia ser alguém legal, mas me enganei, desde que os pais dela faleceram e ela ficou sozinha no mundo dona de uma boa herança ela começou a andar com essa turma que digamos que está no topo da pirâmide.

Ela é linda, isso nem um cego pode negar. Seus cabelos loiros, olhos azuis e boca naturalmente rosada e um corpo bem trabalhado que ela esconde nas roupas meio largas que ela usa. (eu sei do corpo porque fazemos aula de natação juntas, então já a vi de maiô).

A turma dela zoa meus amigos e eu, mas ela mesma, nunca me fez nada. Mas como diz aquele ditado: me diga com quem andas que eu te digo quem és. Então para mim, ela é como eles. Prefiro manter distância, ter boas notas e conseguir a bolsa para a faculdade. E quando chegar este momento de dizer adeus para tudo isso aqui, eu vou esquecer de tudo que passei, vida nova. Serei uma publicitária famosa e extremamente bem sucedida.

POV DIANNA

Seis meses depois

Já passamos do meio do ano, daqui dois meses é o baile de formatura e a formatura. Apesar de andar com quem ando (sei que não somos bem vistos por alguns), eu tenho excelentes notas, o que me deixa com o futuro garantido pra faculdade.

Eu amo Nova York, aqui tem tudo e todo tipo de gente, e pra ser ainda melhor, o meu curso tem uma excelente faculdade que oferta bolsas, meu sonho é fazer Publicidade. Gosto de trabalhar sobre pressão, sei que a vida de publicitários é assim. Gosto de desenhar, criar e convencer pessoas.

Falando em convencer… Hoje será um importante dia, vou chamar a garota que eu sempre quis namorar, para ir ao baile comigo. Eu estava ficando com uma amiga da Ashley, a Bia, ela é uma famosa líder de torcida e não vou mentir nos divertimos muito, mas, sei que ela espera mais de mim. Tipo namoro. E eu não quero isso, não com ela.

Sei que quando meus amigos souberem quem eu convidei, vão me zoar e ameaçar me bater, mas eu realmente gosto dela. Mesmo ela sendo do subsolo da pirâmide como todo mundo gosta de dizer. Foda-se a porra da pirâmide.

Acho Holly linda, estudiosa, fiel aos seus amigos (que são poucos), tem uns pais bacanas, e por mais que todo mundo zoe, eu super iria curtir ter dois pais.

Fred está contando alguma piada, mas eu estou tão nervosa esperando Holly chegar que nem presto muito atenção. Quando vejo ela virar o corredor onde estou, encho meu pulmão de ar e espero ela passar por mim.

– Lá vem a dois pais. – Fred disse fazendo todos rirem.
– Parem com isso. – Falei baixo.

– Xiiiiii, o que foi Di? – Ashley perguntou

– Nada, nada… Só não zoem ela.

– Humm… – Todos começaram a me zoar. – Porque você sempre defende essa estranha? Pode zoar com todo mundo menos com essa aí, o que foi? Você gosta dela? Tá apaixonadinha é, Dianna? – Eles caíram na risada.

– Vão se fuder. – Me desencostei da parede, e fui até ela. – É… É…. Holly? – Disse tremendo, ela ficou parada me olhando. Eu não sabia o que dizer. – Eu sou a Dianna, fiz natação com você um tempo. Sou da sua sala também.

– Eu sei quem você é… O que foi? Você também vai me zoar? Falar sobre meus pais? Sobre eu ser do jornal? Ou o curso de teatro? Vai falar das minhas roupas? Olha, Dianna, se você for falar das minhas roupas, já aviso que você não tem muita moral para isso.

– Uuuu – Meus amigos começaram a me zoar. – Larga essa idiota ae, Dianna!

– Não, juro que não é isso, eu posso te acompanhar até seu armário? Eu queria falar com você. É uma coisa importante.

– Tá, me acompanha. – Ela saiu andando a passos largos e eu tentando acompanhá-la. – O que você quer? Sei que não é nota, suas notas são boas.

– É sobre o fim de ano, o baile de formatura.

– Olha, eu só tenho pais gays mas isso não significa que eu me vista como uma diva. Se quer dicas de moda, peça pra outra garota.

– Não, eu queria te chamar para ir comigo ao baile. – Falei bem baixinho enquanto ela guardava os livros no armário. – Eu tô falando sério.

– Qual é? Você e sua turma querem fazer tipo naquele filme Carrie, a estranha? Vão me banhar de sangue?
– Ham? Claro que não. Eu estou falando sério. Eu quero ir com você.

– Porque isso agora? – Holly me questionou irritada. – Ok, me dê um motivo bom para ir com você?

– Bom, eu… Eu sou legal, sou popular… E tem gente que me acha bonita.

– Nossa quantas qualidades, hein? – Seu tom é de puro sarcasmo. – Mas eu não acho você bonita, não te acho popular e você não é legal. – Holly disse me olhando firme.

– Poxa…

– Eu nem quero ir nesse baile de formatura, eu só quero pegar meu diploma e fazer publicidade.

– Eu também vou fazer publicidade. – Disse feliz pela coincidência.

– Ah, não, meu Deus. Aguentar você por mais cinco anos é castigo demais.

– Qual é? Eu não te faço nada, eu até te defendo para meus amigos!

– Ah sério? Devo agradecer então por não ter minha cara enfiada em um vaso sanitário no terceiro andar?

– No fundo deveria sim, porque era ideia do Fred e eu que implorei pra ele deixar a turma do teatro em paz.

– Ah, meu Deus, como você é um anjo, Dianna! Eu duvido muito que você esteja me convidando de verdade, mas, se for… A resposta é não! E sai da minha frente que preciso ir para redação. – Holly me empurrou com força, eu não acredito que ela teve a ousadia de negar meu convite! Eu não desisto fácil, ela vai comigo sim.

Um mês depois.

Eu estou quase desistindo da ideia de ir ao baile. Eu já tentei de tudo com a Holly, até chocolate já dei. E nada, ela só vive pisando em mim. As pessoas sabem que estou tentando convencê-la de ir comigo, o que só tem piorado, ela tem sido alvo de piadas sem graça, inclusive do Fred.

Faz uma semana que ando sem conversar com ele e a turma dele ( que antes era a mesma da minha). Tudo isso porque ele estava tramando invadir a escola, e estragar as roupas da última peça de teatro. Eu concordei, mas avisei a direção e aos seguranças do prédio. Eles foram pegos antes da hora, os pais foram chamados. Pela primeira vez na vida, eu acho que coloquei a mão na consciência e vi que estava prestes a fazer merda.

Não é só porque Holly faz parte daquilo, mas é porque pessoas se dedicaram, e o fato que Fred e a turma não goste, não significa que é ruim. Eu admiti que fui eu, acho que a turma do teatro nem ficou sabendo e prefiro que não fiquem. Fred ficou puto de raiva, a turma também, eu tentei conversar, explicar. Em momento nenhum eu pedi desculpas, até porque eu acho que fiz o certo. E desde então, eu fui banida do bando.

Não tem sido fácil estar fora do bando, tenho lanchado sozinha, as pessoas me zoam. Tô começando a entender o que as pessoas sentem quando são alvo de piadas maldosas e coisas do tipo. E o que eu posso fazer? Eu zoei com eles o colegial inteiro, eles tem o direito de fazer isso.

Sempre percebo o olhar de Holly em mim, mas prefiro não encará-la. Acho que a minha visão predileta dela é quando ela não está me olhando. Quando ela fica distraída mexendo no cabelo, estudando concentrada.

Holly é linda, cabelos castanhos escuros, olhos da mesma cor. Um sorriso tímido e lindo. Hoje vai acontecer a peça dela, a turma dela vai fazer Hairspray. Esses teatros de escola quase ninguém vai. Eu mesma teria desistido, mas acho que isso que é bacana, não fazer porque espera que alguém vá ver, mas porque gosta.

Eu admito que quis ir ver as outras peças, mas sempre desistia. Hoje vou me dar o direito de ir.

Resolvi ir aos bastidores para desejar boa sorte para Holly. Mas assim que entrei todos me olharam bravos, provavelmente achando que estava ali para zoar com a cara deles. Avistei Holly preocupada.

– Oi. – Disse me aproximando.

– Dianna, agora não. – Ela se virou. – E porque você tá aqui?

– Calma, eu vim te desejar boa sorte. Ví que seus pais estão ai.

– Eles não perdem uma peça… Mas sério, eu preciso resolver um problemão.

– Posso ajudar? – Sai andando atrás dela.

– Não Dianna, você não pode! Ah não ser que você seja a Penny Pingleton, já que a Kassie faltou bem na ultima hora. – Holly disse com desdém, ví seus olhos marejados.

– Está bem, eu faço. – Falei e ela ficou me encarando sério.

– Como? – Ela fingiu não ter escutado.

– Eu sei, eu sei as falas… É um dos meus filmes prediletos, eu gosto da Amanda Bynes, pena que ela surtou, mas é uma ótima atriz, eu sei as falas dela!

– Ok espertona, me diga, o que Penny faz na cena com Seaweed na lanchonete? – Um dos amigos dela me pegou pelo braço.

– Ela dança com ele e depois os dois trocam olhares e se beijam, é aí o primeiro beijo do casal.

– Santo Deus. Ela sabe. – Ele ficou espantado.

– Eu não estou mentindo eu sei.

– Você me beijaria? – Um nerd apareceu do nada todo caracterizado.

– Ué, é a cena… Fazer o que né? – Eles ficaram me olhando paralisada.

– Vem comigo, vou te maquiar e te entregar a primeira roupa. – O cara saiu me puxando meu braço.

– Tá bom.

Me caracterizei, ele me contou um pouco sobre a peça, eu não vou mentir estou nervosa, mas, será legal.

– Oi. – Holly chegou timidamente perto de mim.

– Oi, seu look está ótimo, pelo visto será a senhora Prudy Pingleton.

– É, serei ela sim.

– Temos algumas cenas juntas. Acho que três.

– Você realmente decorou o filme inteiro. – Ela disse em espanto.

– Decorei.

– Porque? – Ela perguntou em um sussurro.

– Porque de estar aqui?

– É.

– Bom, você estava em pânico, angustiada… Não gosto de te ver assim, e se eu posso te ajudar, porque não? – Ela ficou me olhando espantada. – Está na hora de entrarmos. Vamos, vai dar tudo certo.

A peça foi divertida, me diverti muito, não havia nem trinta pessoas assistindo, mas foi legal. A correria fora das cenas, me bateu um baita arrependimento de não ter feito isso antes. As cortinas se fecharam todos comemoravam, com um pouco de choro. É a ultima peça deles. Então deixei a roupa guardada, tirei a maquiagem e fui saindo de fininho.

– Olá, menina. – Um dos pais de Holly me abordou.

– Oi.

– Você é Dianna, não é? Prazer, sou Marcel e ele é meu esposo Frank. Somos os pais de Holly.

– Muito prazer conhecer vocês. – Apertei a mão dos dois.

– Desculpe te parar, mas queríamos te parabenizar, você foi muito bem! Não sabia que você fazia teatro com a nossa filha.

– Mas não faço, faltou uma atriz e eu me voluntariei.

– Ah que gesto lindo… Bom, vamos te deixar em paz. Parabéns, foi um prazer te conhecer, Dianna.

– Imagina, foi um prazer falar com vocês. Até mais, boa noite.

– Boa noite, querida.

Continua…

Leia a parte II

Mil Borboletas – Parte II

 

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Celine Ramos
Baiana, feminista, negra e publicitária. Fundadora do SouBetina. Vivo na ponte-aérea Salvador-São Paulo. <3